Num canto da casa — demasiado cheio para ser arrumado, demasiado vivo para ser descartado — repousa um conjunto de máquinas que ainda funcionam. Não são relíquias inertes. São dispositivos que aguardam apenas um gesto: ligar, escrever, ouvir de novo o silêncio entre duas instruções.
A Casio PB-100 e a Casio PB-700 continuam capazes de executar programas simples, como se cada linha de código fosse ainda um acto de descoberta. O ZX Spectrum 48K recorda-nos que houve um tempo em que 48 kilobytes bastavam para conter mundos inteiros. E o portátil Sanyo 16LT, com as suas drives de disquete e o seu ecrã LCD, permanece como testemunho de uma época em que mobilidade significava transportar não apenas uma máquina, mas uma expectativa — mesmo que essa mobilidade exigisse braços firmes e uma certa determinação física.
Há também discos — flexíveis, magnéticos, quase frágeis — e computadores montados peça a peça: caixa, motherboard, processador, memória, placas gráficas Matrox escolhidas com rigor quase artesanal. E, num canto particularmente luminoso, pequenas EPROM aguardam a luz ultravioleta que as apaga — como se a memória, ali, dependesse ainda de um gesto físico, de um ritual.
Tudo funciona.
E é talvez isso que mais desconcerta.
Porque o mundo mudou, acelerou, esqueceu. Mas estas máquinas não. Persistem, não por teimosia, mas por integridade. Funcionam segundo princípios simples, transparentes, compreensíveis. Não escondem camadas invisíveis de complexidade. Não disfarçam o seu funcionamento.
Há, contudo, uma pergunta que regressa, inevitável:
— Para que serve isto tudo?
Serve para pouco, no sentido imediato. Não responde à urgência do presente. Não optimiza tarefas. Não compete com a velocidade do agora.
Mas serve para algo mais raro.
Serve para lembrar que a tecnologia tem história. Que evolui, como os organismos, por acumulação de soluções, por tentativas, por persistências inesperadas. Que houve um tempo em que cada byte era precioso, e em que programar implicava escolher — com cuidado — o que podia ser dito.
Serve para recordar que a eficiência não é o único valor. Que a lentidão pode conter pensamento. Que entre o comando e a resposta havia um intervalo — e que nesse intervalo cabia a reflexão.
Talvez não seja, afinal, um armazém.
Talvez seja um arquivo.
Não de objectos, mas de tempos.
Não de máquinas, mas de gestos.
E talvez, no meio de tudo isto, haja também uma ironia discreta.
Porque estes objectos — feitos de aço, de vidro, de magnetismo — têm uma robustez que hoje quase desapareceu. Um portátil que pesa vários quilos, um disco rígido com a densidade de um pequeno meteorito, uma câmara mecânica construída para durar décadas, como a Nikon F2. Objectos que, em circunstâncias extremas, poderiam até servir como armas improvisadas — não por intenção, mas por consequência da sua própria solidez.
Mas não é para isso que existem.
Existem porque foram feitos para durar.
E, ao durarem, tornaram-se testemunhas.
E talvez, um dia, alguém volte a ligar uma dessas máquinas. Espere. Observe. E compreenda, nesse breve silêncio inicial, que a tecnologia já foi outra coisa:
mais lenta, mais visível, mais próxima do humano.
E que, por isso mesmo, ainda tem algo a ensinar.