Terminar um grande videojogo deixa muitas vezes um vazio inexplicável. Aquela sensação de tristeza e nostalgia ao ver os créditos finais a passar no ecrã tem agora validação científica. Pela primeira vez, investigadores decidiram analisar a fundo a chamada “depressão pós jogo”, um fenómeno bem conhecido pela comunidade, mas que até agora carecia de dados concretos.
A ciência por trás da melancolia
O estudo, publicado na revista científica Current Psychology, foi conduzido por uma equipa de investigadores da Universidade SWPS e da Academia de Ciências Aplicadas Stefan Batory. O objectivo principal passou por medir a sensação de vazio que surge após a conclusão de uma experiência virtual profundamente imersiva.
Para chegar a conclusões sólidas, a equipa avaliou 373 participantes ao longo de duas fases distintas. É interessante notar que o recrutamento ocorreu através de plataformas como o Reddit e o Discord, espaços onde os jogadores costumam partilhar as suas experiências e frustrações. O facto de o estudo ter recorrido a estas plataformas comunitárias para encontrar voluntários indica que o perfil do jogador moderno é altamente dedicado. Muitos destes utilizadores já debatiam o tema em fóruns muito antes de a academia decidir investigar o assunto a fundo.
Os cientistas classificaram este estado como P-DGS (Post-Game Depression) e dividiram a análise em quatro subescalas específicas. Avaliaram as ruminações relacionadas com o título jogado, a dificuldade em aceitar o fim da experiência, a necessidade compulsiva de voltar a jogar e a anedonia mediática, que se traduz na perda de interesse por outras formas de entretenimento.
O impacto profundo dos jogos de narrativa longa
Os resultados mostram que a anedonia mediática foi o aspecto menos intenso reportado pelos participantes. Por outro lado, a ruminação — ou seja, o ato de pensar constantemente no facto de a história ter chegado ao fim revelou-se o sintoma mais forte. A investigação avança que os sintomas depressivos mais intensos e as maiores perturbações no processamento emocional surgem de forma muito mais evidente entre os utilizadores que acabaram de concluir jogos de interpretação de papéis (RPG).
Estes títulos, conhecidos por exigirem dezenas ou centenas de horas de dedicação, criam laços emocionais fortes com as personagens e com os mundos virtuais. Ao contrário de experiências multijogador contínuas que não têm um fim definitivo, os RPG obrigam o jogador a despedir-se de um universo onde investiu muito tempo e emoção.
Um fenómeno partilhado com a literatura
Embora esta seja a primeira vez que a comunidade científica se debruça sobre os videojogos desta perspectiva, as conclusões alinham-se com investigações anteriores feitas noutras áreas do entretenimento. Um estudo de 2012 sobre livros de ficção chegou a resultados muito semelhantes. Na altura, os investigadores concluíram que a leitura de obras de autores como Arthur Conan Doyle ou José Saramago conseguia transportar os leitores emocionalmente, a ponto de os tornar mais empáticos, mas também os deixava com uma sensação de perda ao fechar a última página.
A grande diferença reside na interactividade. Nos videojogos, o utilizador não é apenas um espectador ou leitor, mas sim o agente activo que toma decisões e molda o destino das personagens. Esta ligação interactiva parece amplificar o sentimento de luto quando a jornada termina. A partir de agora, quando sentir aquela tristeza peculiar ao desligar a consola ou o computador após uma grande aventura, saiba que não está sozinho e que a ciência compreende perfeitamente o seu estado de espírito.