A Intel parece estar a traçar um novo rumo para o futuro dos seus processadores, com uma transição que poderá ditar o fim da estratégia actual de utilização de núcleos híbridos. Uma oferta de emprego recente publicada no LinkedIn revelou que Intel formou uma equipa dedicada ao desenvolvimento da arquitectura “Unified Core”. Este movimento sugere que a empresa está a preparar uma evolução profunda que deverá suceder ao actual modelo de núcleos de desempenho (P-Cores) e núcleos de eficiência (E-Cores), introduzido com a 12.ª Geração Alder Lake.
A vaga em questão foca-se no recrutamento de um engenheiro sénior de verificação de CPU para o grupo de Engenharia de Silício e Plataformas. O objectivo é garantir a correcção funcional de designs de processadores que utilizam esta nova arquitectura unificada. Embora a Intel ainda não tenha feito qualquer anúncio oficial sobre esta mudança de paradigma, os detalhes técnicos exigidos para o cargo indicam que o projecto está a entrar numa fase crítica de desenvolvimento.
O fim da era Alder Lake
Desde 2021 que a Intel tem apostado numa arquitectura híbrida, combinando núcleos grandes e potentes com núcleos pequenos e eficientes. Esta abordagem permitiu à empresa recuperar terreno no mercado de consumo, oferecendo um desempenho multitarefa robusto. No entanto, a gestão de dois tipos de micro arquitecturas diferentes no mesmo pedaço de silício traz desafios complexos, tanto ao nível do escalonamento de tarefas pelo sistema operativo como na optimização de software.
A arquitectura Unified Core parece ser a resposta para simplificar a linha de produtos da empresa. Em vez de manter duas linhagens arquitectónicas distintas a coexistir, a Intel poderá estar a caminhar para um modelo onde existe apenas um “ADN” arquitectónico. Esta estratégia assemelha-se à abordagem que a AMD tem vindo a seguir com os seus núcleos Zen e as variantes “c” (como o Zen 4c). Nestes casos, a arquitectura é idêntica, mas a implementação física é ajustada para densidade ou eficiência, sem sacrificar a compatibilidade de instruções ou a lógica de execução.
Uma nova filosofia de design
Os rumores que circulam na indústria, alimentados por fugas de informação anteriores, apontam para que as arquitecturas Griffin Cove e Panther Lake possam ser as últimas a utilizar o design híbrido tradicional. A partir daí, com projectos como o Titan Lake ou o Hammer Lake, previstos para o final da década, a Intel deverá introduzir o conceito de núcleo unificado.
Esta unificação não significa que todos os núcleos num processador passem a ser idênticos em termos de frequência ou consumo energético. A ideia passa por criar uma micro arquitectura versátil o suficiente para ser configurada de formas diferentes. Ao partilharem a mesma base lógica, a Intel consegue reduzir a complexidade do desenvolvimento e facilitar o trabalho dos programadores, que deixam de ter de lidar com as subtis diferenças de comportamento entre P-Cores e E-Cores. É uma tentativa de obter o melhor de dois mundos: a eficiência de um design coeso com a flexibilidade de uma estrutura modular.
O papel crítico da verificação
A contratação de um engenheiro de verificação nesta fase é um indicador claro da complexidade do projecto. No mundo dos semicondutores, a verificação dos produtos antes de iniciar a produção em massa é uma das etapas mais exigentes e dispendiosas. Estes profissionais são responsáveis por testar biliões de combinações lógicas e cenários de execução especulativa para garantir que o processador não apresenta falhas graves antes de ser enviado para a fábrica.
A Intel procura alguém com experiência profunda em x86 e ferramentas de simulação da Synopsys, o que confirma que o Unified Core continuará a ser o pilar da computação tradicional de alto desempenho. O facto de o engenheiro ter de trabalhar directamente com arquitectos e designers de RTL (Register Transfer Level) sugere que a arquitectura ainda está a ser refinada. Em projectos mais maduros, a verificação foca-se apenas em encontrar erros de implementação; aqui, parece haver ainda espaço para ajustar as próprias características micro arquitectónicas à medida que o design evolui.
Horizonte temporal a longo prazo
Para os entusiastas que esperam ver estas novidades nas prateleiras a curto prazo, a realidade exige paciência. Analisando o ciclo de desenvolvimento típico da Intel, a fase actual de verificação e definição de RTL coloca o lançamento comercial a uma distância considerável. Estima-se que o primeiro silício com arquitectura Unified Core demore pelo menos 18 a 24 meses até chegar à fase de “tape-out” (conclusão do design para fabrico).
Após essa fase, são necessários mais dois anos para testes de validação, produção em massa e distribuição global. Contas feitas, o cenário mais optimista aponta para 2029, sendo 2030 uma data mais realista para a estreia comercial desta tecnologia. Até lá, a Intel continuará a melhorar o design híbrido actual, mas o foco estratégico parece estar já a deslocar-se para esta visão unificada que promete redefinir a eficiência e a potência dos computadores da próxima década.