A MobyFly desenvolve tecnologia e embarcações «para tornar o transporte náutico muito mais sustentável», explica Ricardo Bencatel, CTO e co-fundador da startup. A ideia surgiu das actividades deste responsável (desenvolveu controladores de voo para drones e embarcações hidrofoils) e Anders Bringdal (ligado a desportos náuticos): Imaginei como os hidrofoils poderiam passar de uma tecnologia limitada aos veleiros de competição para uma tecnologia que fosse útil para toda a gente. Daí até à conjugação com propulsão eléctrica, para criar embarcações mais sustentáveis, foi um passo». Os empreendedores foram apoiados pela Associação Suíça de Embarcações Não Poluentes, liderada por Sue Putallaz, e, em conjunto, criaram a MobyFly.
As embarcações da startup têm um «sistema de propulsão a baterias, que virá a ser complementado por hidrogénio, e um sistema de hidrofoils que levanta os cascos acima da água», salienta Ricardo Bencatel. O responsável destaca que estas «asas subaquáticas, que levantam o peso de um pequeno autocarro, com uma área equivalente a uma prancha de surf», produzem «muito menos resistência, consumindo menos energia». Assim, os hidrofoils e a propulsão eléctrica «conferem uma eficiência sem precedentes, reduzindo em 80% o consumo energético» e também os «custos de manutenção, em comparação com as motorizações a diesel, contribuindo para a redução de 60% dos custos operacionais», sublinha o CTO. O sistema de hidrofoils das embarcações da MobyFly é controlado de «forma total por um piloto automático» desenvolvido por Ricardo Bencatel para veleiros da America’s Cup.
Portugal poderá ser pioneiro
A MobyFly já tem um protótipo, o MBFY-S, com capacidade para até vinte passageiros, que deve ser lançado «até ao final do ano». O responsável realça que, em 2026, a startup vai fazer os «testes de água» deste modelo de produção e «lançar a produção de mais unidades, em Portugal». A MobyFly está a negociar com operadores de todo o mundo e é «provável que as primeiras operações comerciais sejam na Europa»; o co-fundador revela que a empresa está a «envidar esforços para que algumas sejam no mercado nacional». Ricardo Bencatel diz que, «tanto os operadores, como os municípios, têm grande interesse no aumento da sustentabilidade económica e ambiental providenciada por estas embarcações». Além disto, as duas entidades são «atraídas também pela velocidade, conforto e a inexistência de esteira», o que «elimina efeitos noutras embarcações e a degradação das margens ribeirinhas».
Crescer em diversas dimensões
A MobyFly tem uma equipa de cerca de vinte colaboradores – seis deles, em Portugal, na UPTEC. Estes profissionais estão «dedicados ao desenvolvimento e produção das embarcações, incluindo engenharia naval, desenvolvimento dos equipamentos e software para o controlo de voo e de interacção com a tripulação e passageiros, e gestão da produção». A startup levantou recentemente 10,8 milhões de euros numa ronda de financiamento Série A, que vai servir, em parte, para investir no «crescimento da equipa e no reforço de parcerias com empresas com competências complementares às das MobyFly», refere Ricardo Bencatel.
Quanto ao futuro, o empreendedor é bastante optimista: «Ambicionamos ser uma referência tecnológica no transporte marítimo. Queremos ser parceiros permanentes dos operadores, actualizando as embarcações durante todo o seu ciclo de vida e permitindo aos operadores optimizar o funcionamento e a manutenção das embarcações de acordo com os seus objectivos. Para tal, estamos já a investir substancialmente nos sistemas electrónicos das embarcações, esforço centrado nos colaboradores portugueses e na modularidade dos sistemas mecânicos, para facilitar tanto actualizações futuras como a manutenção das embarcações».
A ideia passa, também, por desenvolver embarcações com maiores capacidades: «o modelo MBFY-M, capaz de transportar cerca de cem passageiros» e o «modelo MBFY-L, com uma capacidade superior a trezentos passageiros. O objectivo é oferecer soluções superiores, económica e ambientalmente, e em termos de conforto, para a maioria das rotas de ferry no mundo».