Musk, macacos e criptomoedas

A existência de mercados livres como o das criptomoedas tem como contrapartida a responsabilidade que quem neles investe e todos aqueles que acreditam que a culpa de perderem dinheiro nestas “macacadas” não é sua.
André François McKenzie/Unsplash

Com certeza, não passou despercebido a ninguém a forma como Elon Musk “influenciou” a recente subida da algumas criptomoedas através dos seus tweets, onde afirmava que tinha comprado uma quantidade avultada de Bitcoin, e que, a partir daquele momento seria possível comprar carros Tesla usando essa mesma moeda. Pouco tempo depois voltava a tweetar, desta vez para dizer que as compras em Bitcoin seriam suspensas devido à sua eleva pegada energética.

Este infeliz incidente faz-me lembrar um tradicional conto indiano que nos fala de um homem que, ao chegar a uma aldeia, se propõe a comprar macacos por dez euros. Os locais sabiam que existiam milhares de macacos nas selvas que rodeavam a aldeia, e que eram relativamente fáceis de apanhar. O forasteiro comprou dois mil macacos. Com a diminuição de macacos na selva, a dificuldade para os apanhar aumentou e os aldeões decidiram voltar aos seus trabalhos tradicionais. Com isto, o homem anunciou que passaria a pagar vinte euros por cada macaco. Fazendo voltar o afinco pela captura por parte dos locais, mais mil macacos são comprados pelo homem.

A escassez de macacos na selva era cada vez maior, mas antes que os aldeões perdessem o interesse na actividade de captura de macacos, o homem aumentou a sua oferta para quarenta euros por macaco. Nessa altura já era complicado ver um macaco nas selvas à volta da aldeia e por isso apenas quinhentos foram apanhados.

O homem anunciou, então, que iria passar a pagar cem euros por macaco, mas teria antes de ir à cidade onde deixaria os seus macacos ao cuidado do seu assistente. Com a partida do homem, o assistente prontamente se propôs a vender os macacos de volta aos aldeões por cinquenta euros, cada. Percebendo a oportunidade de negócio, os aldeões investiram todas as suas poupanças para reaver todos os macacos que tinham capturado. Depois de receber o dinheiro também o assistente partiu para se juntar ao homem da cidade, para nunca mais voltar. Os aldeões tinham agora 3500 macacos: receberam 60 mil euros para os capturar e compraram-nos de volta por 175 mil euros.

Essas estórias têm como principal função justificar uma má decisão por parte de uma sociedade, transferindo a culpa para um inimigo designado. Judeus, banqueiros, magnatas das tecnologias, não falta criatividade para encontrar um bode expiatório para nossos próprios erros.

A existência de mercados livres como o das criptomoedas tem como contrapartida a responsabilidade que quem neles investe e todos aqueles que acreditam que a culpa de perderem dinheiro nestas “macacadas” não é sua. Podem ficar descansados, que muito rapidamente verão as suas liberdades retiradas por regulamentações e processos legislativos criados para “os proteger”.