The show is logging on

Tenho, no meu papel de consultor, visto com espanto e agrado gente que nunca quis verdadeiramente estar por dentro dos sistemas de informação a aprender a editar, a gravar, a emitir e a distribuir conteúdo cultural.
kal-visuals/Unsplash

Desafortunadamente, a indústria cultural é uma, entre muitas outras, que está a ser fortemente vergastada pelo estado pandémico actual. Num ano, a todos os títulos absolutamente miserável, consigo ainda vislumbrar alguns aspectos positivos nos efeitos COVID-19 no País que somos e que teima em sobreviver (na verdade, desde 1143 que o fazemos quase na perfeição).

Não foi apenas o teletrabalho que forçou a sociedade a um curso intensivo de adaptação tecnológica (e isso, só por si, já tinha sido uma lufada de ar fresco na vida tecnológica de milhares e milhares de portugueses). A Cultura, essa massa resiliente por vezes tão abastardada pelo poder, surpreendeu-me (surpreendeu-nos) de uma forma espantosa. As companhias e os organismos que dependem de receitas para poder funcionar, reinventaram-se. Redescobriram-se. Foram à procura do oxigénio que dá pelo nome de público. E, para isso, moveram montanhas, não físicas, mas mentais.

Tenho, no meu papel de consultor, visto com espanto e agrado gente que nunca quis verdadeiramente estar por dentro dos sistemas de informação a aprender a editar, a gravar, a emitir e a distribuir conteúdo cultural. Se, por um lado, esse esforço foi reactivo, acredito que muito desse conhecimento adquirido em ritmo intensivo ficará para o sector como uma mais-valia. As coisas não regressarão ao que era dantes. A indústria foi ao encontro do público, deu-lhe a provar “doces” que nunca tinha demonstrado saber fazer e isso, meus caros, não tem regresso.

Fico absolutamente siderado quando, no meu círculo de amigos, me perguntam se determinado espectáculo em cena num qualquer teatro está a disponibilizar bilhetes remotos. Fico ainda mais agradado quando artistas e promotores de espectáculos desenham obras especificamente com a interacção humana em mente. Não há regresso deste estado de coisas. Já ninguém se satisfaz apenas com um simples stream, as pessoas querem estar, querem sentir-se parte de um espectáculo sem colocar a sua integridade em perigo.

Há poucos dias estreou em Lisboa um espectáculo de um artista nacional em que dois terços da sala (que por razão das restrições não pode efectivamente ser vendida) estará sentada nos respectivos sofás das suas próprias casas… isto é maravilhoso, por um lado: as lições que aprendemos durante esta crise sanitária darão frutos, tornar-nos-ão mais exigentes a consumir conteúdo. Quando a cortina fechar, não serão apenas tecidos a mover-se sobre tábuas. Serão centenas de licenças de Zoom e outros produtos que terminarão as suas sessões.