Os organismos de representatividade da classe profissional dos professores têm vindo a alertar para as questões relativas às fraudes em avaliações de alunos, devido à forma discreta como as tecnologias permitem que se possa recorrer a fontes externas à sala de exame, através da utilização de pequenos gadgets de comunicação. Auriculares miniaturizados, Bluetooth, de tamanhos ínfimos, capazes de permanecer quase invisíveis no canal auditivo e que permitem receber respostas ditadas por alguém no exterior, sem levantar qualquer suspeita.
Smartwatches “carregados” de fórmulas, resumos ou comunicação com o exterior via mensagens, aproveitando o facto de muitos alunos os usarem normalmente no dia-a-dia, o que dificulta a imediata deteção. Óculos com microcâmaras permitem fotografar o enunciado e enviá-lo a alguém fora da sala, que depois transmite as respostas por outro meio. As probabilidades são inúmeras e o mercado tem novidades nesta matéria a cada semana, pelo que é normal que os profissionais se interroguem sobre o que fazer perante esta ameaça.
Não faz muito tempo, disse a um director de um agrupamento escolar, que me narrava situações ocorridas durante uma temporada de testes e me perguntou o que se pode fazer. Creio que, na altura, lhe dei o exemplo da ineficácia do dedo no furo do dique que pode romper começando por uma gota. Esta metáfora do dique é feliz, porque dá uma sensação imediata de segurança, mas tende a fazer-nos ignorar a questão estrutural.
Já era assim há cinquenta anos (se bem me lembro): cada método “auxiliar” detectado era substituído por outro (alguns, perfeitas maravilhas da criatividade). A mim, pessoalmente, que não detenho nenhum papel na educação académica, parece-me que a resposta não pode ser tecnológica. Não se vai erguer uma resposta a cada método descoberto, mas mais tarde ou mais cedo terão de ser repensados os métodos pelos quais se avalia um aluno.
Há muito tempo que defendo que o peso da avaliação tem de ser deslocado para formatos e canais onde a fraude perca a utilidade. A defesa da oralidade, a execução de tarefas em tempo real, trabalhos desenvolvidos ao longo dos períodos escolares ou, mais radicalmente, a mudança de paradigma do exame, que abandone a memorização e assente no raciocínio. Creio que, em devido tempo, essa mudança terá começado, mas foi revertida algures, não sei bem por quê.
