‘Offload’: esta é a palavra de ordem no admirável mundo da IA. Primeiro de trabalho, depois de trabalhadores, a seguir de inteligência e, agora, de identidade. Depois das entidades artificiais que passam por gente a sério, chegaram os sucedâneos digitais de gente que já existe. Mas a cópia não é o original.
Em ‘Multiplicity’ (1996), Michael Keaton cria um grupo de clones para lidar com todas as exigências da sua vida. Homer, em ‘Os Simpsons’, fez o mesmo, num episódio de Halloween. Em ambos os casos, as cópias não se comportam como o original, com personalidades que exageram um traço da matriz. Cada clone é uma caricatura do real, com os devidos efeitos cómicos.
Mark Zuckerberg não deve conhecer os benefícios admonitórios da comédia. Senão, nunca teria pensado em criar um clone em IA para que os seus subordinados possam falar com Ele. A capitalização é propositada: com esta simulação, treinada nos seus registos e maneirismos, Mark torna-se ubíquo. O digital está sempre disponível, enquanto o real pode ir fazer uma sesta. E aprende mais depressa do que a versão de matéria orgânica.
Só que, como a IA tem tendência para divergir, pergunto-me: o Mark original é responsável pelo que o Mark artificial diz? E se for mais competente ou, até, mais humano? E se os subordinados gostarem mais da cópia do que do original? Como crentes que oram a representações do divino, as suas preces serão ouvidas pelo Altíssimo? Como será o log de Deus, quero dizer, do Meta Mark? Será que ele o lê? Nada, a IA faz-lhe um resumo em formato de podcast para ouvir no ginásio, pois claro.
Baudrillard postulou que um simulacro não é apenas uma cópia do real, é uma representação que não tem base numa realidade subjacente. É algo que se torna mais importante do que aquilo que deveria representar, acabando por substituí-lo. Simulando-se o verdadeiro Mark Zuckerberg, deixa ele de ser real?
Walter Benjamin defendeu que multiplicar é desvalorizar. Ou seja, o homem múltiplo não vale nada. Mas, verdade seja dita, já não tinha o Mark em grande conta, de qualquer forma.