Como passo muito tempo sozinho e não tenho paciência para conversar com simulacros de personalidade e, às vezes, desato em diálogos imaginários com personagens inventadas em situações hipotéticas. Este é um deles. Sim, a terapia ajuda, mas isso é para outra crónica. Para já, anda cá, ó caixa de óculos!
Há dez anos, ninguém achou piada aos Glassholes. Porque é que pensam que vamos achar piada agora? Viver numa sociedade assente na cultura e economia digitais implica uma monitorização constante dos nossos movimentos nas suas dependências, sejam as ferramentas de contacto, as de consulta ou as de pagamento de produtos e serviços.
Mas esta monitorização traz conveniência. Agora, o que nos traz a observação de um olhar aumentado digitalmente? Que intenções se escondem por detrás das lentes de marca? Por que é que tenho que existir sob um olhar humano auxiliado por IA? Que intenções tem esse utilizador e onde é que ele arranjou os túbaros para sair da frente do seu ecrãzinho e ostensivamente andar no meio de nós?
Disse ‘túbaros’ porque 99% dos utilizadores de smart glasses deverão ser homens, porque são sempre homens, e sempre do mesmo tipo, a compensar alguma falta de poder ou potência. Se queres um maior sinal de que és um falhado, agora tens uns óculos para o anunciar a toda a gente: parabéns! Há excepções, há sempre. Mas são excepções.
Se o teu sonho é ser um PIDE/STASI/KGB privado, estás do lado errado da História. Se queres ser uma pessoa – e reconhecido como tal – tira a porra dos óculos e aprende a viver com as pessoas. Há utilidades para esta tecnologia e não é para identificar estranhos na rua nem filmá-los para colocares no teu grupinho de Whatsapp a tresandar a Eau de L’Incel. A tua liberdade termina onde começa a liberdade dos outros. Eu, e o resto da Humanidade, somos livres de não sermos vistos por ti.
Há uma app para detectar óculos inteligentes. Espero que criem uma que os bloqueie. Rápido. Senão, a evolução deu-nos o polegar oponível, que não é só para fazer likes! Se há coisa que aprendi ao longo de uma vida recheada com alguns dos avanços tecnológicos mais extraordinários da História (e pareço um senhor do século XIX a falar, e parece que também nos esquecemos do que aconteceu nesse século e as consequências) é que não aprendemos nada com os falhanços.
Também aprendi que o poder ignora a vontade do indivíduo. E também assisti ao crescimento do poder do indivíduo sobre o outro com novas formas de coação, todas baseadas em informação. Não são novas, mas são mais velozes, mais vistosas, mais destrutivas. E aprendi que a melhor estratégia de negócio hoje em dia é criar uma solução para um problema ou uma necessidade que não existem. A necessidade que se tornou um bem escasso é o direito à privacidade e ao anonimato, que pura e simplesmente deixaram de existir.