A agência espacial norte-americana (NASA) viu-se obrigada a tomar medidas drásticas para prolongar a vida útil da histórica sonda Voyager 1. Lançada em 1977 para uma missão inicial de apenas cinco anos, a nave continua a explorar o espaço interestelar, mas a sua fonte de energia nuclear está a perder força. A equipa do Jet Propulsion Laboratory (JPL) decidiu desligar o instrumento LECP (Low-energy Charged Particles) para reduzir o consumo eléctrico e evitar falhas graves nos sistemas do veículo.
A decisão surge no seguimento de uma queda inesperada nos níveis de energia, registada em Fevereiro deste ano, durante uma manobra de rotação planeada. Este evento imprevisto forçou os engenheiros a reduzir o número de instrumentos activos a bordo. O objectivo principal é impedir que o sistema de protecção contra subtensão seja activado de automaticamente. Se isso acontecesse, a sonda começaria a desactivar componentes por conta própria, o que exigiria uma intervenção manual complexa por parte da equipa de voo na Terra para garantir que a nave se mantém a funcionar.
O declínio da fonte de energia nuclear
A Voyager 1 integra um gerador termoeléctrico de radioisótopos (RTG), que converte o calor gerado pela decomposição de plutónio em electricidade. Quando iniciou a sua viagem há mais de quatro décadas, este sistema oferecia cerca de 470 watts de potência. No entanto, estima-se que a sonda perca aproximadamente 4 watts de capacidade todos os anos. Segundo dados avançados pela publicação Universe Today em 2019, a nave já operava com menos de 270 watts nessa altura, o que representava cerca de 57% da sua capacidade original. Hoje, esse valor é ainda mais baixo.
O instrumento agora desactivado, o LECP, tem sido fundamental para a missão. Esta funcionalidade científica mede iões, electrões e raios cósmicos, e tem fornecido dados cruciais sobre a estrutura do meio interestelar e as frentes de pressão para lá da nossa heliosfera. Apesar da sua importância, a NASA teve de escolher quais os sistemas a manter activos para aumentar a longevidade da missão. Curiosamente, a equipa não desligou o instrumento por completo, optando por deixar um pequeno motor a consumir apenas 0,5 watts, o que torna mais fácil uma eventual reactivação no futuro.
Planos para o futuro e optimização de recursos
Apesar de a sonda estar a mais de um dia-luz de distância da Terra, o que torna qualquer reabastecimento impossível, os engenheiros estão a preparar uma solução ambiciosa apelidada “Big Bang”. A ideia passa por desligar simultaneamente vários dispositivos activos nas sondas Voyager 1 e 2 e substitui-los por alternativas de menor consumo. Esta actualização visa tornar as naves mais eficientes, permitindo que os seus geradores durem mais tempo. A necessidade de optimizar recursos e adaptar a tecnologia a novas realidades não é um desafio exclusivo da exploração espacial.
O plano da NASA indica que a correcção energética será primeiro testada na Voyager 2, que se encontra mais perto do nosso planeta. Caso a operação seja bem-sucedida, a mesma estratégia será aplicada à Voyager 1. Se tudo correr como planeado, existe a forte possibilidade de o instrumento LECP voltar a ser ligado, o que ajudará a velha sonda a continuar a enviar dados valiosos para a Terra, ultrapassando largamente a marca do seu quinquagésimo aniversário no espaço, previsto para 2027.