A tensão entre a Anthropic e o governo dos Estados Unidos atingiu um novo patamar. O Departamento de Defesa norte-americano classificou oficialmente a empresa de inteligência artificial como um risco para a cadeia de abastecimento. Como resposta, a tecnológica prometeu processar o Pentágono para reverter a decisão.
O conflito central baseia-se em duas linhas vermelhas que a Anthropic se recusou a ultrapassar durante as negociações com o governo. A empresa não aceita que o modelo Claude seja utilizado para vigilância interna em massa de cidadãos americanos, nem para o desenvolvimento de armas totalmente autónomas. A tecnológica defende que estas excepções são razoáveis, limitadas e que nunca afectaram qualquer missão governamental até à data. O Pentágono, no entanto, discorda em absoluto.
Um alto funcionário do Pentágono confirmou que a designação de risco entrou em vigor de forma imediata. Num comunicado publicado após o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, ordenar a aplicação da medida, a Anthropic considerou a acção infundada do ponto de vista legal. A empresa alertou que esta postura cria um precedente perigoso para qualquer entidade norte-americana a negociar com o Estado. Em vez de ceder às pressões, a firma prefere lutar nos tribunais.
O impacto político e as reacções
O Presidente Donald Trump comentou o caso numa entrevista recente, onde afirmou que despediu a Anthropic por causa da recusa da empresa. A tecnológica não tem um histórico de oposição à defesa nacional. De facto, a empresa afirma que apoia o trabalho do governo em redes classificadas desde Junho de 2024 e mantém o compromisso com projectos de segurança nacional. Contudo, existem limites éticos que a administração de Dario Amodei recusa quebrar.
O director executivo da Anthropic, Dario Amodei, escreveu que o impacto prático desta designação é mais restrito do que os responsáveis governamentais tentam transparecer. O líder da empresa explicou que a lei relevante apenas permite aplicar a restrição ao uso do Claude em contratos directos com o Departamento de Defesa, e não a todas as relações comerciais que envolvam fornecedores militares. Na perspectiva da Anthropic, o Pentágono tenta esticar a lei muito além do seu âmbito original.
O Conselho da Indústria de Tecnologias de Informação, que inclui vários gigantes do sector, deixou um aviso claro. A entidade sublinhou que a utilização de poderes de emergência num litígio de aquisições pode injectar incerteza no mercado e dificultar o acesso do governo às melhores ferramentas disponíveis.
Uma medida inédita contra uma empresa americana
A Anthropic destaca que esta é a primeira vez que uma medida deste género tem como alvo público uma empresa americana, em vez de um adversário estrangeiro ou uma entidade de alto risco semelhante. Do lado do governo, a justificação mantém-se firme. Um oficial do Pentágono referiu que o princípio fundamental é garantir que os militares conseguem usar a tecnologia para todos os fins legais. O mesmo responsável acrescentou que as forças armadas não vão permitir que um fornecedor se insira na cadeia de comando ao restringir o uso legal de uma capacidade crítica, o que colocaria os soldados em perigo.
As conversações recentes entre a Anthropic e o Departamento de Defesa não deram em nada. Fontes próximas do processo indicam que o fracasso se deveu, em parte, à forma como Donald Trump e outros membros da administração criticaram a empresa em público. Pete Hegseth chegou a publicar nas redes sociais que a tecnológica deu uma “aula magistral de arrogância”. Sabe-se também que Amodei é um dos poucos líderes tecnológicos a não fazer grandes doações a Trump, o que pode ter contribuído para o clima de hostilidade.
Entretanto, a Microsoft confirmou que vai continuar a trabalhar com a Anthropic em projectos não relacionados com a defesa, e tenciona integrar a tecnologia da empresa nos produtos para clientes civis.