A Apple reiterou a obrigatoriedade de o Patreon migrar todos os seus criadores para o sistema de compras integradas da App Store. Após um período de incerteza e sucessivas alterações de política, a plataforma de financiamento colectivo confirmou que tem agora até Novembro de 2026 para concluir a transição de todos os modelos de facturação para a infra-estrutura da Apple. O incumprimento desta directriz resultará na remoção imediata da aplicação da loja oficial do iOS, um cenário que o Patreon descreve como incomportável para a sustentabilidade dos seus criadores.
O fim da “zona cinzenta” de facturação
Durante anos, o Patreon operou numa espécie de “zona cinzenta” regulamentar no ecossistema iOS. Ao contrário de outras aplicações de conteúdos digitais, muitos criadores no Patreon utilizavam modelos de facturação que processavam pagamentos fora do alcance das comissões da Apple (a habitual taxa de 30%). Esta excepção baseava-se, em parte, na forma como os conteúdos eram consumidos e na natureza técnica do sistema IAP da Apple, que historicamente não suportava a flexibilidade de facturação exigida pelo Patreon, como cobranças por publicação ou subscrições anuais personalizadas.
Contudo, a Apple decidiu encerrar esta excepção. A gigante tecnológica bloqueou recentemente actualizações da aplicação do Patreon, deixando claro que a permanência na App Store depende da total conformidade com o seu sistema de pagamentos. Para o Patreon, esta decisão é vista como um golpe na previsibilidade necessária para gerir negócios a longo prazo. Em comunicado, a empresa expressou o seu forte desacordo, sublinhando que os criadores estão a ser vítimas de uma “chicotada psicológica” regulamentar, referindo-se às três mudanças de política impostas pela Apple nos últimos 18 meses.
Um histórico de avanços e recuos
O braço-de-ferro entre as duas entidades não é recente. Em Agosto de 2024, o Patreon já tinha alertado os seus utilizadores para a necessidade de migrar para o sistema da Apple, com um prazo inicial fixado para Novembro de 2025. No entanto, após a Apple ter sido forçada a flexibilizar algumas regras da App Store — permitindo, por exemplo, que as aplicações incluíssem ligações para métodos de pagamento externos na web —, o Patreon chegou a informar os criadores de que o prazo anterior já não estava em vigor.
Esta nova reviravolta, que fixa agora a data limite em Novembro de 2026, demonstra que, embora a Apple permita ligações externas, não abdica de que as transacções realizadas dentro da aplicação passem pelo seu crivo financeiro. O Patreon afirma ter proposto múltiplas ferramentas e funcionalidades técnicas que permitiriam uma transição mais suave e personalizada para os criadores, mas todas terão sido rejeitadas por Cupertino.
O impacto para criadores e utilizadores
Apesar do ruído mediático, o impacto imediato poderá ser contido: estima-se que apenas 4% dos criadores do Patreon ainda utilizem os modelos de facturação afectados por esta mudança. No entanto, para estes criadores, a transição implica uma perda directa de margem de lucro devido às comissões da Apple, ou a necessidade de aumentar os preços para os subscritores que utilizam dispositivos iOS.
Como alternativa técnica para mitigar o impacto da “taxa Apple”, o Patreon continuará a incentivar os fãs a subscreverem os seus criadores favoritos através do browser (Safari, Chrome, etc.), contornando assim as restrições da App Store. Uma vez feita a subscrição via web, o conteúdo pode ser consumido na aplicação iOS sem que a taxa de 30% seja aplicada sobre as mensalidades recorrentes.
Este caso reforça o debate contínuo sobre o monopólio da App Store e o controlo apertado que a Apple exerce sobre a economia digital, forçando plataformas independentes a adaptarem os seus modelos de negócio às exigências técnicas e financeiras de uma única infra-estrutura.