A Samsung, líder incontestável do mercado global de televisores durante quase duas décadas, está prestes a perder a coroa para a TCL. Segundo os dados mais recentes da consultora Counterpoint Research, relativos ao desempenho do sector em Novembro de 2025, a gigante chinesa reduziu a distância para a liderança para apenas um ponto percentual. Enquanto as vendas da Samsung registaram uma quebra de 3% no ano passado, a TCL viu o seu volume de vendas disparar 20%, consolidando uma trajectória que poderá alterar definitivamente a hierarquia tecnológica mundial já nos próximos meses.
Actualmente, a Samsung mantém uma quota de mercado de 17%, mas sente a pressão directa da TCL, que já detém 16%. Este cenário de convergência ocorre num momento em que o mercado global de televisores enfrenta uma ligeira retracção de 1% em termos homólogos, o que acentua ainda mais o mérito da estratégia de expansão da marca chinesa.
A estratégia agressiva da TCL e o domínio do MiniLED
O sucesso da TCL não é fruto do acaso, mas sim de uma combinação entre competitividade de preços e aposta em tecnologias de ponta. De acordo com Sujeong Lim, Director Associado da Counterpoint Research, a marca tem conseguido uma recepção extraordinária em mercados emergentes — com destaque para a Europa de Leste, Médio Oriente e África — através da oferta de painéis MiniLED a preços significativamente mais acessíveis do que os praticados pela Samsung ou pela LG.
Esta democratização de tecnologias anteriormente reservadas ao segmento “premium” permitiu à TCL duplicar as suas remessas de televisores de gama alta no final de 2024, ultrapassando a LG nesse nicho específico. Enquanto os fabricantes tradicionais lutam para manter as margens de lucro, a TCL aproveita a sua integração vertical para ganhar escala e quota de mercado de forma agressiva.
O “xeque-mate” através da parceria com a Sony
Um dos factores determinantes para a futura liderança da TCL é o acordo estratégico assinado recentemente com a Sony. Num acordo que surpreendeu a indústria, a tecnológica japonesa aceitou transferir o controlo operacional da sua divisão de entretenimento doméstico para a TCL. Através de uma joint venture que deverá iniciar operações em Abril de 2027, a TCL passará a deter 51% da unidade, ficando a Sony com os restantes 49%.
Embora os televisores continuem a ser comercializados sob as prestigiadas marcas Sony e Bravia, as métricas de mercado passarão a contabilizar estas unidades como remessas da TCL, uma vez que esta detém o controlo maioritário da operação. Este volume adicional será, muito provavelmente, o empurrão final necessário para que a TCL ultrapasse a Samsung de forma oficial e permanente.
O papel do Google TV
A ascensão da TCL tem também implicações profundas no ecossistema de software. A marca é, actualmente, o principal parceiro da Google no segmento das salas de estar, utilizando o Google TV como sistema operativo principal nos mercados globais. Contudo, o futuro deste domínio não está isento de desafios.
Relatórios da consultora Omdia indicam que, embora o Google TV lidere actualmente com 40% de quota de mercado (excluindo a China e a América do Norte), deverá enfrentar uma concorrência crescente de sistemas como o Vidaa (Hisense), Titan e TiVo nos próximos dois anos. Na América do Norte, a situação é ainda mais complexa: a aquisição da Vizio pela Walmart por 2,3 mil milhões de dólares deverá impulsionar o CastOS para a liderança, relegando o Google TV para uma quota inferior a 10% naquela região.
Um mercado em mutação: Hisense, LG e a ameaça da Walmart
Abaixo do duelo pelo topo, o mercado revela outras dinâmicas interessantes. A Hisense ocupa o terceiro lugar com 10%, mas sofreu uma queda acentuada de 13% nas remessas, penalizada sobretudo pelo abrandamento do mercado interno chinês. Já a LG mantém-se estável na quarta posição (9%), conseguindo compensar a fraca presença na China com um crescimento robusto na América do Norte (8%) e na América Latina (29%).
A grande surpresa no Top 5 é a entrada da Walmart, que através da integração da Vizio se tornou a concorrente mais directa da Samsung no mercado norte-americano. Este novo panorama demonstra que o sector dos televisores já não se decide apenas pela qualidade do painel, mas sim pela capacidade de escala, controlo da cadeia de distribuição e domínio do ecossistema de conteúdos.