O mercado tecnológico global prepara-se para um agravamento significativo nos custos do hardware. Analistas e fabricantes alertam para subidas acentuadas nos preços de computadores e dispositivos móveis a partir da segunda metade de 2026, impulsionadas pela procura voraz de Inteligência Artificial (IA) nos centros de dados, que está a drenar a capacidade de produção de memória RAM.
De acordo com dados da consultora IDC, a indústria de semicondutores enfrenta uma escassez sem precedentes de memórias DRAM e NAND, que se manifestará com maior gravidade no final de 2025 e poderá prolongar-se até 2027. O fenómeno deve-se à reorientação estratégica dos três gigantes que dominam 75% do mercado — Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology. Estas empresas estão a desviar a produção das memórias convencionais para a Memória de Banda Larga Elevada (HBM), essencial para os aceleradores de IA da NVIDIA, onde as margens de lucro são entre duas a cinco vezes superiores.
O impacto desta transição será sentido directamente no bolso dos consumidores e das empresas. Fabricantes como a Lenovo, Dell, HP, Acer e Asus já sinalizaram previsões de aumentos entre 15% a 20% nos preços de venda ao público a partir do segundo semestre de 2026. A pressão é exacerbada pela transição para o Windows 11, após a descontinuação do Windows 10, e pela emergência dos chamados “AI PC”.
No segmento dos dispositivos móveis, o cenário é igualmente desafiante. Embora os modelos topo de gama da Apple e da Samsung possam absorver parte dos custos devido às suas margens elevadas, as marcas de segmento médio e de entrada, como a Xiaomi, Oppo e Vivo, estarão mais expostas, sendo provável que transfiram o aumento dos componentes directamente para o preço final.
A configuração do hardware para os próximos anos reflecte estas novas exigências:
- Copilot+ PC: Exigência mínima de 16 GB de RAM, com sistemas de gamas mais altas a duplicar esta capacidade para 32 GB.
- Smartphones Android de entrada: Dispositivos mais vulneráveis a cortes em actualizações de hardware ou subidas de preço, dado que a RAM representa entre 10% a 20% do custo total de fabrico.
- Servidores de IA: Infra-estruturas que agora requerem vários terabytes de DDR5, comparativamente aos 128 GB ou 256 GB dos servidores tradicionais.
Esta crise de oferta não é acidental. Após os ciclos de excesso de inventário em 2018 e 2022, os fabricantes de DRAM optaram por uma disciplina rigorosa na expansão da capacidade de produção. Mesmo com a subida dos preços, os fornecedores evitam investimentos agressivos em novas fábricas, priorizando a rentabilidade em detrimento do volume.
O projecto “Stargate” da OpenAI é um dos exemplos da escala do problema. A organização assinou cartas de intenção com a Samsung e a SK Hynix que poderão consumir até 900.000 wafers de silício de DRAM por mês, uma fatia colossal da capacidade global que deixará o mercado de consumo em segundo plano na lista de prioridades de fornecimento.