Num estúdio de casino ao vivo como o Super Spin Casino, cada mesa funciona como um pequeno canal de televisão, com várias câmaras, iluminação própria, servidores de transmissão e equipas técnicas a garantir que o sinal chega sem falhas a milhares de jogadores. A 23 de outubro, a Evolution, uma das maiores empresas mundiais do setor, anunciou nos resultados trimestrais o encerramento temporário do seu estúdio no Brasil.
A decisão é uma das consequências da Medida Provisória n.º 1.394/2026, publicada a 25 de setembro, que pôs fim às apostas desportivas e ao casino online legalizados no país. O setor tinha sido regulamentado e começado a operar com licenças federais menos de dois anos antes.
O impacto no emprego foi imediato. Segundo um levantamento preliminar da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), divulgado no início de outubro, mais de 7.600 trabalhadores já tinham sido afetados. Desse total, mais de 3.500 foram despedidos e 4.167 foram colocados em férias coletivas.
Uma cadeia que vai muito além do operador
A ANJL estima que, se a proibição se mantiver, os despedimentos poderão chegar aos 5.600 no prazo de 90 dias, e sublinha que o problema não se limita às casas de apostas. Empresas de tecnologia, pagamentos, publicidade, marketing e atendimento ao cliente também dependiam deste mercado.
Há até uma camada menos visível, ligada à comunicação. Redatores, tradutores, especialistas em pesquisa e em redes sociais e agências de publicidade trabalham para dar a conhecer marcas e produtos em cada mercado. São empregos que raramente aparecem nas estatísticas do setor, mas que dependem diretamente da sua existência.
Os perfis tecnológicos mais procurados
No centro desta indústria está o software. Cada jogo de casino online é, na prática, uma aplicação que tem de correr de forma estável no navegador e no telemóvel, em ecrãs de todos os tamanhos. Para isso, os estúdios contratam programadores de jogos, especialistas em interfaces, artistas digitais, animadores e designers de som, muitas vezes com experiência prévia na indústria dos videojogos.
Por trás da parte visual há outra equipa menos conhecida. Os matemáticos e analistas de jogo definem a probabilidade de cada combinação, o retorno ao jogador e o ritmo dos prémios, enquanto as equipas de testes simulam milhões de rondas para confirmar que o comportamento real corresponde ao desenhado. Só depois os jogos seguem para certificação em laboratórios independentes.
Do lado das plataformas, os perfis mais valorizados estão ligados à infraestrutura, à cibersegurança, aos pagamentos e à análise de dados, incluindo ferramentas de inteligência artificial. No casino ao vivo, juntam-se engenheiros de vídeo e de transmissão, realizadores e técnicos de som, que asseguram emissões contínuas 24 horas por dia, além dos crupiês e apresentadores que dão a cara em cada mesa.
Malta, o exemplo do lado oposto
Se o Brasil mostra o que acontece quando um mercado fecha, Malta é o exemplo de um país que apostou na estabilidade. Segundo os números do relatório anual da autoridade reguladora maltesa, divulgados em agosto, cerca de 15.039 pessoas trabalhavam em empresas licenciadas no final de 2025, mais 4,8% do que no ano anterior e bem acima das 13.404 de 2023.
O setor representa cerca de 6,3% da produção da economia maltesa, valor que sobe para 8,2% quando se incluem os efeitos indiretos. No final do ano passado, 302 empresas detinham 311 licenças emitidas pelo regulador local.
E Portugal?
O mercado português é mais pequeno, mas tem crescido de forma consistente desde a regulação do jogo online, em 2015. No terceiro trimestre de 2025, por exemplo, a receita bruta do jogo online atingiu os 297,1 milhões de euros, e a receita dos jogos de casino subiu 12,7% face ao mesmo período do ano anterior.
Não existe um número oficial de empregos ligados ao setor, mas há exemplos que mostram o potencial tecnológico do país. A Fabamaq, fundada no Porto em 2010, desenvolve jogos para casinos físicos e online e exporta para mercados como Espanha, Filipinas, México e Estados Unidos. Em 2023, a empresa contava com cerca de 230 trabalhadores, sobretudo nas áreas de desenvolvimento de jogos e testes de software.
Também os grandes operadores internacionais olharam para o talento português. A Kaizen Gaming, empresa grega que opera em Portugal com a marca Betano, abriu em 2021 um centro tecnológico em Lisboa, onde recruta engenheiros de software, programadores para iOS e Android e responsáveis de tecnologia.
No jogo físico, a chegada do francês Groupe Barrière ao Casino da Póvoa e da espanhola Cirsa ao Casino da Figueira, ambas este ano, traz novas equipas de gestão, jogo, restauração e animação.
Estabilidade, a palavra-chave
O contraste entre os três países deixa uma conclusão clara. Um mercado com regras previsíveis atrai empresas, investimento e profissionais qualificados, sobretudo na área tecnológica. Quando essas regras mudam de forma abrupta, como aconteceu no Brasil, os efeitos chegam em poucas semanas a milhares de trabalhadores.
Para Portugal, que combina um mercado regulado com talento tecnológico reconhecido, o desafio passa por continuar a atrair empresas da área e afirmar-se como polo de desenvolvimento, e não apenas como mercado de consumo.
