Há uma parte da Fórmula 1 que os espectadores nunca vêem. Não está nos carros, nas boxes ou no pódio, mas sim nos bastidores. É uma enorme infraestrutura tecnológica que tem de funcionar em todos os circuitos, independentemente do local, das condições climatéricas ou da quantidade de dados que é necessário processar.
Uma infraestrutura complexa
Antes do Grande Prémio de Espanha, que se realizou este ano em Madrid, Lee Wright revelou aos jornalistas como tudo acontece e de forma a Lenovo é um parceiro importante nesta equação. O profissional esclareceu que é «responsável por todos os sistemas de tecnologias de informação da Fórmula 1», o que inclui desde os computadores e smartphones utilizados pela equipa até aos sistemas de computação, armazenamento, redes, telemetria, cronometragem, cloud, DevOps e AIOps. Tudo isto depende do equipamento da Lenovo como Global Technology Partner, que fornece workstations, servidores, HPC, sistemas de virtualização e IA e dispositivos móveis da Motorola, entre outros.
O Associate Director of IT referiu que, no que diz respeito à parte tecnológica, tudo é feito pela equipa da F1: «Cada circuito é único, mas somos muito auto-suficientes. Por isso, levamos connosco toda a infraestrutura necessária. Ao promotor, solicitamos uma área de betão para montar o nosso centro técnico do evento, água potável, esgotos e comunicações. Tudo o resto levamos nós próprios».
A operação é «totalmente remota» e está dividida em três áreas: «aquisição, processamento e distribuição». No circuito, o Event Technical Centre (ETC) recolhe os sinais das câmaras, microfones, carros, sistemas de cronometragem e telemetria. Grande parte dessa informação segue depois para o Media and Technology Centre, em Biggin Hill, no Reino Unido. Há uma excepção, como indica Lee Wright: «Para garantir a menor latência possível, processamos os dados de telemetria no próprio circuito».
650 TB por fim-de-semana
A Fórmula 1 realiza 24 corridas por ano ao longo de 9 meses em 21 países, alcançando uma audiência global superior a 1,6 mil milhões de espectadores. Este desafio obriga a ter uma operação de grande dimensão e muito bem organizada. Assim, a informação é transportada entre o circuito e o Reino Unido através de dois circuitos ópticos de 10 Gbps, com percursos geograficamente distintos. Cada um transmite cerca de 8,5 Gbps. No total, são entre 600 e 650 TB de dados por fim-de-semana de corrida. Para os processar, a F1 recorre a uma infraestrutura Lenovo distribuída por toda a operação. No caso da telemetria, a F1 desenvolveu, com a Lenovo, uma nova plataforma virtualizada, com workloads containerizados, que permite processar no circuito os dados recolhidos pelos carros.
Antes, essa informação era processada no Reino Unido. Em circuitos mais distantes, como Melbourne, o processo podia acrescentar pelo menos 300 milissegundos de latência. «Sabíamos que precisávamos de melhorar a comunicação com o carro, recolher mais dados e informação e reduzir a latência e o tempo necessário para processar esses dados», salientou Wright na conferencia de imprensa que antecedeu a GP de Espanha.
A nova arquitectura foi testada ao longo de 2025 e entrou em operação em 2026. A mudança é particularmente relevante num ano em que a grelha passou a contar com uma nova equipa, aumentando a capacidade necessária do sistema. A Lenovo indica que a nova plataforma permite processar directamente no circuito cerca de 8 TB de telemetria por fim-de-semana e reduzir a latência até 0,3 segundos.
Um data center que viaja
Existe, contudo, outro desafio. A infraestrutura da F1 viaja de circuito para circuito, como salienta o Associate Director of IT: «Não está num data center tradicional. É transportada em aviões, viaja em camiões, é movimentada por empilhadores, fica quente num asfalto de um país, fria num circuito de outro e pode apanhar chuva. Mas temos de esperar que o hardware ligue sempre».
É por isso que a fiabilidade é uma prioridade e a Lenovo é vital neste processo. Este data center móvel cabe em três contentores e têm racks e sistemas anti-vibração para proteger o equipamento. Depois de uma corrida, o hardware começa a viagem para o circuito seguinte. No caso de Monza e Madrid, o equipamento saiu de camião poucas horas depois do final da corrida. As equipas viajaram de avião e voltaram a encontrar-se no circuito para instalar e testar os sistemas. «Foi uma verdadeira operação logística», resumiu Lee Wright.
IA e encriptação
A inteligência artificial é também cada vez mais importante e F1 já utiliza PC com capacidades de IA e, segundo o responsável, alguns programadores e analistas de dados registaram melhorias de cerca de 30% no tempo necessário para executar determinados modelos de cálculo. O objectivo é particularmente importante num desporto em que não existe margem para erros: «Como desporto em que os horários não podem ser alterados, é na resolução de problemas que concentramos mais esforço».
Mas a utilização de IA não fica pela produtividade: «Utilizamos IA para ajudar o nosso staff. Em última análise, permite-lhes ser mais produtivos e eficientes». Assim, a tecnologia é usada no desenvolvimento de aplicações, na detecção de anomalias e na análise de logs para ajudar os engenheiros a encontrar respostas mais rapidamente.
Toda esta informação tem ainda de ser protegida. A F1 é o fornecedor oficial de telemetria das equipas e recebe os dados provenientes dos carros, incluindo informação sobre travagem, direcção, acelerador e desempenho do motor. Mas nem tudo pode ser visto por todos, como realçou Lee Wright: «Temos de garantir que os dados de telemetria de cada equipa são mantidos separados. Tudo é encriptado e, mesmo nós, não conseguimos desencriptar esses dados. Só a equipa tem a chave para o fazer».
O cérebro da operação
O ETC é montado no circuito 10 dias antes da corrida. Este edifício tem 375 m², alberga 750 equipamentos e demora 5 dias a ser construído. Além disso, são instalados mais de 58 km de cabos de fibra óptica, antenas, até 8 câmaras por monolugar (mais de 90 câmaras nos carros). Na pista, utilizam-se até 28 câmaras UHD, câmaras super lentas, drones, câmaras em helicópteros e 150 microfones. Tudo para garantir que equipas, a FIA e fãs do desporto têm toda a informação sempre à mão.
Neste verdadeiro cérebro da operação em cada circuito, a plataforma de virtualização da Lenovo fornece a capacidade de computação necessária para executar as seguintes operações: 1,4 THz de CPU distribuídos por 512 núcleos de CPU, 8,2 TB de RAM e 100 TB de armazenamento totalmente em flash.
Visitámos este um centro técnico itinerante onde passa toda a operação da F1 e onde vimos uma área onde estão os profissionais ligados à parte de transmissão de conteúdos e do outro lado estão os técnicos que asseguram a cronometragem dos tempos e que todas as regras são seguidas. O ETC é, sem sombra de dúvida, uma imponente infraestrutura tecnológica onde estão 140 membros da equipa técnica, operacional e de produção televisiva que trabalham dia e noite para garantir que o espectáculo não tem falhas.
