A computação quântica está a abrir portas para resolver um dos maiores desafios da energia de fusão. A IBM, em parceria com o Oak Ridge National Laboratory e a Cleveland Clinic, descobriu uma nova forma de modelar como as centrais de fusão podem produzir e recuperar trítio. Este combustível raro é fundamental para o processo, mas os fornecimentos são limitados, uma vez que a sua meia-vida de doze anos resulta numa degradação relativamente rápida.
O desafio do trítio na fusão nuclear
A falta de trítio representa um enorme obstáculo para estabelecer a fusão como uma fonte de energia viável. Este isótopo radioactivo do hidrogénio pode ser produzido ao expor lítio a neutrões. No entanto, capturar e reutilizar o trítio é uma tarefa notoriamente difícil. Para ajudar neste processo, os cientistas utilizam um sal fundido conhecido como FLiBe (flúor, lítio e berílio), que pode envolver a reacção de fusão como um manto protector.
O problema reside em descobrir qual é a receita mais eficiente para que este sal retenha o combustível. Os cálculos a esta escala são demasiado complexos para os computadores clássicos, o que exigiu uma nova abordagem tecnológica.
A solução híbrida da IBM
Para contornar as limitações tradicionais, os investigadores decidiram usar computadores clássicos para a modelação mais simples e deixar o hardware quântico da IBM determinar as nove configurações moleculares específicas deste material. Esta divisão de tarefas ajudou a equipa a simular o comportamento do sal fundido com e sem trítio. A empresa classifica este marco como o primeiro caso conhecido de cálculos de materiais de fusão a utilizar tecnologia quântica.
Este nível de precisão só é alcançável porque a gigante tecnológica tem vindo a optimizar as suas máquinas, nomeadamente ao desenvolver métodos capazes de diminuir as falhas durante o processamento quântico. O objectivo passa por garantir que os modelos ajudam os cientistas a calcular a força com que o trítio se liga ao sal fundido, um teste crucial para saber se uma futura central conseguirá recuperar combustível suficiente para se manter a funcionar.
Um futuro além da energia
A fusão nuclear é uma alternativa mais limpa e segura à fissão, pois não produz reacções em cadeia, gera resíduos radioactivos de menor duração e apresenta um risco muito inferior de colapso. Contudo, a dificuldade em controlar temperaturas superiores às do sol e em gerir o combustível explica a ausência de centrais comerciais em operação.
Para que este cenário mude, são necessários avanços contínuos no design dos reactores e na produção de componentes. A IBM está na linha da frente desta revolução, não apenas no campo quântico, mas também na miniaturização extrema, tendo já fabricado processadores com dimensões impensáveis até há pouco tempo. Além disso, a aposta no hardware do futuro é clara, reflectindo-se no financiamento milionário para erguer novas instalações de produção em solo norte-americano.
As descobertas impulsionadas por estas máquinas não se limitam ao sector energético. Em Maio de 2026, a IBM anunciou que os cientistas usaram a computação quântica para modelar a forma como moléculas de medicamentos se ligam a proteínas na água, simulando reacções que ocorreriam dentro do corpo humano. Este passo pode dar às empresas farmacêuticas uma ferramenta muito mais eficaz para prever quais as moléculas que merecem ser testadas antes de iniciarem o trabalho de laboratório.
