A ambição desmedida de colocar um milhão de satélites em órbita pode ditar o fim da astronomia baseada em terra. Um novo estudo do Observatório Europeu do Sul (ESO) traça um cenário sombrio para o futuro da observação espacial, à medida que os céus ficam cada vez mais congestionados.
O impacto devastador nos observatórios
O investigador Olivier Hainaut simulou a posição, o movimento e o brilho das frotas de satélites actuais e propostas para quantificar os danos reais. Os números mostram que os instrumentos de pesquisa de campo largo vão sofrer consequências irreparáveis. Se os satélites forem ligeiramente mais brilhantes do que o previsto, uma câmara como a do Observatório Vera C. Rubin pode perder a maioria das suas imagens durante horas, todas as noites.
Espelhos no espaço e poluição luminosa
A situação atinge proporções ainda mais alarmantes com a proposta da Reflect Orbital para lançar satélites equipados com espelhos. Um único espelho pode arruinar uma observação sem sequer estar a apontar o seu feixe para um telescópio. Com uma frota de cerca de 50 mil espelhos no espaço, todas as imagens seriam perdidas sempre que a luz solar lhes tocasse. Esta infra-estrutura junta-se a outros projectos, como a nova infraestrutura de processamento de dados em órbita que a empresa aeroespacial estreou recentemente.
Os especialistas destacam três consequências principais desta ocupação orbital:
- Perda de dados cruciais: As câmaras de grande angular, essenciais para mapear o cosmos, correm o risco de captar apenas rastos de luz, o que inviabiliza a descoberta de novos corpos celestes e a observação do Universo profundo.
- Aumento drástico da poluição luminosa: O brilho do céu nocturno pode quadruplicar, o que vai esconder galáxias distantes, exoplanetas e dificultar a detecção de asteróides perigosos que se aproximam da Terra.
- Danos ambientais e biológicos: A reflexão constante de luz afecta os ritmos circadianos da fauna terrestre, enquanto a desintegração contínua de satélites na atmosfera liberta metais e poluentes nocivos.
Um limite necessário para salvar o céu
Para mitigar o problema, Hainaut propõe limitar o número global de satélites a 100 mil, desde que nenhuma nave seja visível a olho nu a partir de um local escuro, embora admita que prefere um tecto máximo de 50 mil. O investigador descreve a órbita terrestre baixa como uma “costa celestial”, um recurso partilhado que deve fornecer conectividade ao mesmo tempo que preserva a janela da humanidade para o espaço.
As conclusões já chegaram às entidades reguladoras. O ESO, a União Astronómica Internacional e a Sociedade Astronómica Real usaram estes dados para responder aos pedidos da SpaceX e da Reflect Orbital na Comissão Federal de Comunicações dos EUA. Betty Kioko, representante do ESO, refere que a ameaça à astronomia ótica é existencial e confirma a recepção de milhares de comentários de oposição a estes projectos.
A decisão está agora nas mãos dos reguladores, que precisam de pesar a conectividade global contra a preservação de um céu nocturno que, uma vez perdido, dificilmente voltará a ser o mesmo.
