O sistema operativo de código aberto prepara-se para deixar para trás uma peça histórica de hardware. Recentemente, os responsáveis pelo desenvolvimento do kernel começaram a remover o suporte para o processador Intel 486, um chip com 37 anos de existência. A notícia, avançada pelo portal Tom’s Hardware com base em informações do site especializado em Linux e aplicações de código aberto Phoronix, indica que as alterações já se encontram em curso para a versão 7.1 do kernel.
O criador do sistema, Linus Torvalds, já tinha sugerido esta possibilidade há algum tempo. Segundo o programador, não existe qualquer motivo real para continuar a manter a compatibilidade com esta arquitectura antiga. Na verdade, Torvalds refere que a manutenção deste suporte prejudica os esforços de desenvolvimento das versões mais recentes do kernel. À medida que o software cresce e passa a exigir mais recursos para executar tarefas complexas, manter código obsoleto torna-se um fardo desnecessário.
O panorama actual da plataforma é muito diferente do que era na década de noventa. Hoje em dia, o sistema atrai um público cada vez mais vasto e exigente, algo evidente quando observamos que o número de jogadores a utilizar Linux na plataforma da Valve atingiu recentemente um máximo histórico. Para responder a esta nova realidade, a equipa de desenvolvimento precisa de focar a sua atenção em hardware moderno.
O fim da linha no código
O programador Ingo Molnar foi o responsável por dar o passo definitivo. De acordo com o Phoronix, Molnar criou uma actualização que elimina as opções de compilação específicas para o 486, nomeadamente as configurações CONFIG_M486SX, CONFIG_M486 e CONFIG_MELAN. Numa nota que acompanha a alteração, o programador explica que a arquitectura x86-32 integra várias funcionalidades complexas de emulação de hardware para suportar processadores antigos de 32 bits.
Molnar acrescenta que quase ninguém utiliza estes chips com as versões modernas do kernel. Esta camada de compatibilidade causa, por vezes, problemas técnicos que obrigam os programadores a gastar tempo precioso na sua resolução. Um exemplo prático é a necessidade de manter um emulador de co-processador matemático no código, uma vez que o 486SX foi o último sistema da Intel a ser comercializado sem esta unidade integrada. Ao remover este código, a equipa liberta recursos para optimizar outras áreas do sistema operativo, garantindo um desempenho melhorado nas máquinas actuais.
Alternativas para os entusiastas
Lançado originalmente em 1989, o Intel 486 marcou uma geração inteira da informática. Embora a remoção do suporte na versão 7.1 signifique que os utilizadores não vão conseguir compilar uma imagem do kernel para esta arquitectura, os computadores antigos não vão deixar de funcionar de um dia para o outro.
Os entusiastas da computação retro e as empresas ou organizações governamentais que ainda mantêm sistemas baseados nestes processadores têm alternativas à sua disposição. Algumas destas entidades ainda dependem de placas de expansão antigas que utilizam o barramento ISA, o que torna a transição difícil. A solução imediata passa por continuar a utilizar as versões LTS (Long Term Support) do Linux, que garantem actualizações de segurança durante vários anos. Desta forma, é possível espremer mais algum tempo de vida útil destas máquinas clássicas, antes de ser necessário actualizar o hardware para opções mais recentes. A comunidade retro poderá não ficar totalmente satisfeita, mas a evolução tecnológica dita que o código antigo tem de dar lugar ao progresso.