A Qualcomm, que adquiriu a famosa marca de hardware de código aberto Arduino no ano passado, acaba de anunciar um novo computador de placa única. O equipamento dá pelo nome de Arduino Ventuno Q e tem como objectivo principal fundir a inteligência artificial com a robótica avançada. O anúncio surge nas vésperas do evento Embedded World, a marcar um passo importante na estratégia da empresa para colocar o processamento de dados complexos directamente nos dispositivos físicos, sem depender da nuvem.
O novo hardware foi desenhado de forma específica para sistemas que se movem, manipulam objectos e respondem ao mundo físico com precisão e fiabilidade. Ao contrário das placas tradicionais da marca, esta aposta num formato mais sofisticado e com um poder de processamento muito superior, a focar-se em projectos que exigem respostas em tempo real.
O significado por trás do nome e a herança da marca
A escolha do nome não foi um acaso. A palavra “Ventuno” significa “vinte e um” em italiano, uma homenagem directa ao vigésimo primeiro aniversário da fundação do Arduino, que se celebra no final deste mês. Além disso, existe uma ligação clara ao modelo mais popular da empresa, o Arduino UNO, que significa “um”.
Para a fabricante, o modelo UNO representou o momento de afirmação da marca no mercado de entusiastas e criadores. Agora, com o lançamento do Ventuno Q, a empresa demonstra o longo caminho percorrido ao longo de duas décadas, a passar de microcontroladores simples para plataformas de computação de alto desempenho capazes de lidar com tarefas complexas de inteligência artificial.
Arquitectura de cérebro duplo para máximo desempenho
A grande novidade técnica do Ventuno Q reside na sua arquitectura de cérebro duplo. A placa é construída sobre a plataforma Dragonwing da Qualcomm, a integrar o processador da série Dragonwing IQ8. Este chip inclui um processador central ARM Cortex de oito núcleos, um processador gráfico Adreno Arm Cortex A623 e uma unidade de processamento neural (NPU) Hexagon Tensor capaz de atingir até 40 TOPS (triliões de operações por segundo).
Para complementar este poder de cálculo, a placa conta com um microcontrolador STM32H5 dedicado. Esta divisão de tarefas é crucial. Enquanto o processador principal lida com as cargas de trabalho de inteligência artificial tradicional e generativa, o microcontrolador assume o controlo de motores e a actuação de baixa latência.
No campo da memória e armazenamento, o equipamento não desilude. Vem equipado com 16 GB de memória RAM LPDDR5, ideal para lidar com inferência simultânea e multitarefa complexa, e 64 GB de armazenamento eMMC. Caso os utilizadores precisem de mais espaço, é possível expandir a capacidade através de uma ranhura M.2 NVMe Gen4. As opções de conectividade são igualmente robustas, a incluir Wi-Fi 6, Bluetooth 5.3, porta Ethernet de 2.5 Gbps, suporte para câmaras USB e múltiplos conectores de alta velocidade para câmaras MIPI-CSI, áudio avançado e ecrãs.
Software unificado e inteligência artificial sem ligação à internet
A complexidade de usar múltiplos dispositivos é eliminada graças à capacidade da placa para sincronizar percepção, decisão e acção. O processador principal está configurado para correr os sistemas operativos Ubuntu e Linux Debian, enquanto o microcontrolador em tempo real utiliza o Arduino Core sobre o sistema operativo Zephyr. Esta separação garante um comportamento determinístico para tarefas onde o tempo de resposta é crítico.
Os programadores vão poder construir sistemas complexos de forma mais rápida através do Arduino App Lab. Este ambiente de desenvolvimento unificado permite trabalhar com esboços Arduino, scripts em Python e uma variedade de modelos de inteligência artificial prontos a usar. A lista de capacidades suportadas de forma totalmente offline, impulsionadas pelo Qualcomm AI Hub, inclui modelos de linguagem de grande escala (LLM), modelos de visão e linguagem (VLMs), reconhecimento automático de fala, reconhecimento de gestos, estimativa de pose e rastreamento de objectos. Para projectos ainda mais avançados, a plataforma já se encontra integrada com o Edge Impulse Studio.
Aplicações práticas e chegada ao mercado
Segundo Fabio Violante, vice-presidente e director-geral da parceria entre a Arduino e a Qualcomm, a nova placa permite que a inteligência artificial passe finalmente da nuvem para o mundo físico. O executivo sublinha que o objectivo é tornar a robótica avançada acessível a todos os programadores, educadores e inovadores.
O Ventuno Q foi pensado para sistemas que funcionam de forma totalmente autónoma, como quiosques inteligentes, assistentes de saúde, análise de fluxo de tráfego e sistemas de visão na periferia da rede (Edge AI). A placa suporta fluxos de trabalho prontos para ROS 2, a facilitar a vida a quem desenvolve robôs.
A chegada ao mercado do Arduino Ventuno Q está agendada para o segundo trimestre de 2026. O equipamento vai estar disponível na loja oficial da marca e através de revendedores autorizados como a DigiKey, Farnell, Macfos, Mouser e RS. O preço final ainda não foi fixado ao cêntimo, mas a empresa espera que o valor fique abaixo dos 300 dólares.