A Meta, empresa-mãe do Facebook e Instagram, anunciou uma ofensiva jurídica sem precedentes para travar esquemas de fraude e burlas nas suas plataformas. A gigante tecnológica decidiu avançar com processos judiciais contra anunciantes sediados no Brasil, China e Vietname, acusando-os de utilizar tácticas enganosas para lesar os utilizadores. Esta medida surge como resposta ao aumento de campanhas que utilizam a imagem de figuras públicas e tecnologias de inteligência artificial para promover produtos falsos e investimentos inexistentes.
Além das acções em tribunal, a Meta procedeu à suspensão imediata dos métodos de pagamento destes anunciantes, à desactivação de contas relacionadas e ao bloqueio de domínios utilizados para concretizar as burlas. A empresa enviou ainda notificações de cessação e desistência a oito consultores de marketing que prometiam contornar os sistemas de segurança da plataforma, oferecendo serviços para recuperar contas banidas ou alugar perfis fidedignos para fins ilícitos.
O flagelo do celeb-bait
Um dos principais alvos desta ofensiva é a prática de “celeb-bait”, onde os burlões utilizam a imagem e a voz de celebridades, muitas vezes manipuladas por inteligência artificial, para atrair vítimas. No Brasil, os visados Vitor Lourenço de Souza e Milena Luciani Sanchez são acusados de usar figuras públicas para promover produtos de saúde fraudulentos. Outro caso envolve a empresa B&B Suplementos e Cosméticos, que terá utilizado a imagem sintética de um médico conceituado para vender produtos sem aprovação regulamentar e cursos que ensinam a replicar estas tácticas.
Na China, a Shenzhen Yunzheng Technology foi processada por visar utilizadores em vários países, incluindo os Estados Unidos e o Japão. O esquema consistia em atrair pessoas para grupos de investimento fictícios através de anúncios enganosos. Para combater este fenómeno, a Meta revelou que possui um programa de protecção que já abrange as imagens de mais de 500 mil figuras públicas em todo o mundo, a tentar identificar e remover automaticamente estes conteúdos.
Tecnologia para enganar sistemas
No Vietname, a acção judicial foca-se em Lý Văn Lâm, acusado de utilizar uma técnica conhecida como “cloaking”. Este método consiste em mostrar uma versão inofensiva de um site aos sistemas de revisão da Meta, enquanto os utilizadores reais são redireccionados para páginas maliciosas. Neste caso específico, as vítimas eram atraídas com promessas de descontos em marcas famosas em troca do preenchimento de um inquérito. Ao introduzirem os dados do cartão de crédito, os utilizadores acabavam por sofrer cobranças recorrentes não autorizadas, num esquema de fraude de subscrição.
Números alarmantes no sector
A gravidade da situação é reforçada por dados recentes. Uma investigação da Reuters revelou que cerca de 19% das vendas de publicidade da Meta na China, em 2024, tiveram origem em anúncios de burlas, jogo ilegal ou pornografia. Paralelamente, um estudo da Gen Digital, que analisou 14,5 milhões de anúncios na União Europeia e no Reino Unido, concluiu que quase um em cada três anúncios redireccionava para esquemas de phishing ou malware.
Estes grupos organizados operam à escala industrial, com apenas dez anunciantes a serem responsáveis por mais de 56% de todos os anúncios fraudulentos observados. A Meta reforça que estas acções judiciais são um passo essencial para desmantelar a infra-estrutura económica que sustenta o cibercrime e para garantir a segurança de quem utiliza as suas redes sociais diariamente.