O Parallel Society, que se realizou em Marvila, reuniu a comunidade tecnológica e da música com o conceito «ser humano em primeiro lugar». O evento, com organização da Logos, teve a duração de dois dias em que o primeiro contou com diversas palestras sobre temas actuais da sociedade ligados à tecnologia, nas quais, se incluiu a keynote de Brewster Kahle, fundador do Internet Archive. O responsável falou da missão da organização, de como estão a descentralizar estes arquivos digitais e destacou que o mesmo deve acontecer com a própria Internet, para «proteger o acesso global ao conhecimento e evitar monopólios» das grandes tecnológicas. O empreendedor referiu que a descentralização «não é assim tão difícil» em termos tecnológicos, mas que «institucionalmente, tem sido um longo, longo caminho que já deveria ter sido feito há muito tempo».
Reunir conhecimento
Brewster Kahle sublinhou que a organização quer «dar acesso universal a todo o conhecimento existente» e por isso «ter todas as obras publicadas pela humanidade». E falou da escala que já conseguiram atingir no Internet Archive e que vai além da iniciativa Wayback Machine com mais de 1 trilião de páginas web arquivadas: «Temos 1,3 milhões de títulos de software; 11,5 milhões de imagens e vídeos, 13 milhões de gravações de áudio; 8,4 milhões de eBooks; 3,3 milhões de horas de televisão em qualidade de DVD de cerca de 70 canais de aproximadamente 45 países. Fazemos conversão de voz em texto, em tempo real e até tradução para o inglês para conseguir identificar tendências e o que se está a passar».
O responsável explicou ainda que todos os acessos são feitos sem anúncios nem vigilância: «Esforçamo-nos muito para nem sequer recolher os endereços IP que chegam aos nossos servidores de Internet, e, por vezes, activamo-los devido a comportamentos inadequados». O fundador do Internet Archive salientou que «o que é realmente importante é que, ao longo dos últimos 30 anos, talvez mil milhões de pessoas tenham partilhado gratuitamente o que sabem com quem quer que desejasse receber essa informação». Além disso, referiu que disponibilizam «a melhor e maior biblioteca do mundo para pessoas cegas e disléxicas», já estão quase a atingir «210 petabytes» dados e são o «200º site mais popular do mundo».
O melhor da Europa
Brewster Kahle esclareceu que é tempo de pensar «o que acontece se as bibliotecas fossem destruídas propositadamente pelos poderosos» e isso passa por «tentar fazer cópias noutros locais e também criar estruturas menos centralizadas». Assim, face a repetidos processos judiciais nos Estados Unidos realizados por editoras e às ameaças de censura, o Internet Archive adoptou uma estratégia de descentralização física, criando pólos e infraestruturas no Canadá, na Europa, nomeadamente nos Países Baixos e na Suíça.
O responsável destacou que a grande vantagem de estar na Europa em relação ao seu país de origem é que «há uma lei que permite que as instituições culturais trabalhem com organizações de investigação para fazer mineração de texto e dados com IA» e «que não podem ser processados pelas editoras». Por ouro lado, falou da política de IA europeia dizendo que no continente «têm a clareza para tentar desenvolver IA para o bem público» e deu alguns exemplos do que o Internet Archive está a fazer: uma ferramenta que usa IA para sugerir citações de artigos e autores da Wikipédia e assim «ajudar essa plataforma a ser melhor e mais forte» e o ClimateGPT, «para ajudar a compreender o impacto das alterações climáticas». Isto deve-se ao facto de existir uma isenção muito clara na legislação europeia sobre direitos de autor que permite ao sector público avançar», acrescentou.
Descentralizar é preciso
A descentralização foi o tema central da keynote de Brewster Kahle. «A web original era fantástica e era tão simples», mas «existe apenas uma cópia, e esta encontra-se apenas num servidor; e, se for alterada ou apagada, fica alterada ou apagada para todos, para sempre». É por isso que o responsável acredita que é necessária a descentralização: «Temos de criar um sistema em que haja muitos vencedores, múltiplas cópias e propriedade digital. Vamos construir um código que tenha, basicamente, os nossos valores incorporados. Vamos tornar a web aberta. Vamos colocar a liberdade de expressão da Primeira Emenda [da Constituição dos EUA] no próprio código».
A ideia é criar uma web em que as pessoas tenham «as mesmas liberdades que têm no mundo físico para aceder a conteúdos e realizar transacções, sem terem as comunicações vigiadas». O fundador do Internet Archive explicou que para se ter uma web descentralizada é preciso, pelo menos, três elementos: «ser confiável, privada e divertida». Kahle revelou as razões para isso: «Se queremos que aplicações tenham sucesso, não queremos senhorios digitais. Queremos propriedade digital. Se pagamos por algo, devemos possuí-lo pelo menos da mesma forma que o possuímos no mundo físico. Queremos um jogo com muitos vencedores, e isso requer que não haja um jogo com cinco vencedores e para isso precisamos de sistemas para garantir que a monopolização não funcione na nossa tecnologia».
Uma versão descentralizada do WordPress
Para demonstrar a viabilidade da sua visão para a web, Kahle apresentou uma versão descentralizada do WordPress, o Onion Press, que funciona através da rede Tor no seu portátil Mac. Esta é materialização da ideia de um «servidor web descentralizado» que permite que «qualquer pessoa aloje o seu próprio site no seu computador pessoal de forma privada», «dispensando a compra de domínios e alojamento em serviços na cloud» e sem complicações. E se a máquina original estiver desligada é possível garantir que o conteúdo permanece online através de redireccionamentos automáticos para o Wayback Machine. «Assim, os URL continuam a funcionar, e vão funcionar sempre, mesmo quando o portátil está offiline ou já está morto».
No final, Brewster Kahle deixou um repto: «Encorajo-vos a pensar em qualquer coisa cool que usem muito e que vos deixe um pouco desconfortáveis por ser controlada por uma grande empresa. Será que não podemos simplesmente torná-la descentralizada? E acho que podemos, se nos empenharmos realmente nisso».