A gigante do streaming está a transformar a sua plataforma num ecossistema literário completo. Com o anúncio da funcionalidade “Page Match”, que utiliza visão computacional para sincronizar livros físicos com audiolivros, e a entrada na venda directa de exemplares em papel, o Spotify posiciona-se agora como um rival directo da Amazon e da Audible.
O Spotify continua a sua expansão agressiva para além da música e dos podcasts, focando-se agora em eliminar as barreiras entre a leitura tradicional e o consumo de áudio. A empresa anunciou um conjunto de ferramentas tecnológicas e parcerias estratégicas que prometem mudar a forma como os utilizadores interagem com os seus livros, independentemente do formato. O destaque vai para o “Page Match”, uma ferramenta que utiliza a câmara do telemóvel para criar uma ponte digital entre o papel e o streaming.
Sincronização inteligente via OCR
A funcionalidade “Page Match” é, na sua essência, uma aplicação avançada de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) e visão computacional. O conceito é simples: se um utilizador estiver a ler um livro físico (ou um e-book num Kindle) e precisar de interromper a leitura para conduzir ou realizar outra tarefa, basta apontar a câmara do telemóvel para a página onde parou.
Através do algoritmo do Spotify, a aplicação identifica o texto, localiza o timestamp exacto na versão em audiolivro e oferece a opção de continuar a audição a partir desse ponto. O sistema funciona de forma bidireccional; se o utilizador quiser regressar ao livro físico após ouvir alguns capítulos, a aplicação pode indicar se deve avançar ou recuar páginas para encontrar o ponto exacto da narrativa. Segundo a empresa, esta tecnologia utiliza uma combinação de soluções internas e de terceiros para garantir precisão em mais de 500.000 títulos já disponíveis na plataforma.
Do digital para a estante: a venda de livros físicos
Numa decisão surpreendente para uma plataforma puramente digital, o Spotify confirmou que passará a vender livros físicos (capa dura e edições de bolso) directamente através da aplicação. Esta funcionalidade, prevista para a primavera no Reino Unido e nos EUA, surge de uma parceria com a Bookshop.org, uma plataforma que apoia livrarias independentes.
Embora o inventário e a logística fiquem a cargo da Bookshop.org, a integração no Spotify permite que os utilizadores comprem a versão física de um audiolivro que acabaram de ouvir com apenas um clique no botão “Adicionar à estante em casa”. Do ponto de vista de negócio, o Spotify actuará como um afiliado, recebendo uma comissão por cada venda, o que representa uma nova fonte de receita num sector de margens tradicionalmente baixas, como é o streaming de música.
Audiobook Recaps
Para reforçar a retenção dos utilizadores, o Spotify anunciou também a chegada dos “Audiobook Recaps” aos dispositivos Android. Esta funcionalidade, que já estava em fase beta no iOS, utiliza inteligência artificial para gerar resumos curtos e sem spoilers das secções ouvidas anteriormente. É uma ferramenta pensada para leitores que fazem pausas prolongadas entre sessões de audição e precisam de refrescar a memória sobre o enredo.
Actualmente, os subscritores Premium do Spotify em vários países (infelizmente não em Portugal) já têm direito a 15 horas de audição mensal de audiolivros (30 horas no plano Audiobook+). Com o crescimento de 36% no número de utilizadores deste segmento no último ano, estas novas ferramentas tecnológicas não são apenas conveniências, mas sim uma tentativa clara de centralizar o mercado editorial dentro de uma única aplicação, desafiando o domínio histórico da Amazon no sector.