A Nvidia reafirmou recentemente o seu compromisso com a Shield TV, um dispositivo que, contra todas as expectativas da indústria tecnológica, completa uma década de existência com suporte técnico activo. Numa era marcada pela obsolescência programada, a tecnológica de Santa Clara mantém a sua “set-top box” como a referência absoluta no ecossistema Android TV, deixando a porta aberta para uma futura actualização de hardware focada em novos padrões de vídeo.
Lançada originalmente em 2015, a Nvidia Shield TV prepara-se para celebrar o seu décimo aniversário, um marco raramente alcançado por qualquer dispositivo baseado em Android. Enquanto a maioria dos fabricantes de smartphones e tablets abandona o suporte técnico do software dois ou três anos depois do lançamento, a Nvidia continua a lançar actualizações para o modelo original, mantendo-o relevante e funcional. Este fenómeno não é acidental, mas sim o resultado de uma estratégia deliberada e de uma filosofia de engenharia que privilegia a longevidade.
A longevidade como factor de diferenciação técnica
Numa entrevista recente ao site ArsTechnica, Andrew Bell, Vice-Presidente de Engenharia de Hardware na Nvidia, revelou que o projecto Shield nasceu de uma necessidade interna. Os engenheiros da empresa pretendiam um reprodutor de streaming de alto desempenho que não estivesse confinado ao ecossistema fechado da Apple. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, não só apoiou a ideia como estabeleceu uma directriz ambiciosa: suportar o dispositivo “enquanto estivermos vivos”.
Esta promessa traduziu-se num ciclo de vida sem precedentes. Mesmo com o hardware actual a datar de 2019 (a versão mais recente introduziu o SoC Tegra X1+) a Shield TV continua a superar a concorrência directa em termos de fluidez e capacidades de processamento. O segredo reside na arquitectura do processador Tegra, que, embora antigo para os padrões actuais de gaming móvel, continua a ser extremamente eficiente na descodificação de vídeo e no “upscaling” de imagem através de inteligência artificial, uma das funcionalidades mais elogiadas do modelo Pro.
O que esperar de uma nova geração?
Apesar de não haver planos imediatos para o lançamento de uma “Shield TV 2”, a Nvidia admite que continua a realizar experiências em laboratório. Andrew Bell confirmou que a empresa está atenta à evolução do mercado e que um novo modelo será equacionado assim que houver um salto tecnológico que justifique a transição.
Entre as prioridades para um eventual sucessor estão tecnologias que o hardware actual não consegue processar de forma nativa ou optimizada. O destaque vai para a descodificação de hardware do codec AV1, que se está a tornar o padrão para streaming de alta eficiência no YouTube e Netflix. Além disso, o suporte total para HDR10+ e actualizações nas implementações de Dolby Vision são pontos críticos que a Nvidia pretende abordar. Curiosamente, Bell mencionou ainda o desejo de remover o botão dedicado à Netflix no comando actual — uma imposição de certificação da época que muitos utilizadores consideram intrusiva.
Um mercado sem concorrência à altura
A persistência da Shield TV no mercado deve-se também à estagnação do segmento de gama alta das boxes Android TV. Enquanto a Google e a Amazon se focam em “dongles” de baixo custo e desempenho limitado, a Nvidia mantém-se isolada no topo, oferecendo funcionalidades como o servidor Plex integrado, suporte para áudio “lossless” (pass-through de Dolby Atmos e DTS:X) e a capacidade de transformar a TV numa consola de jogos através do serviço de streaming GeForce Now.
A Nvidia continua a fabricar unidades da Shield TV porque, segundo Bell, a procura permanece constante semana após semana, independentemente de campanhas de marketing. Para o utilizador entusiasta e para o leitor da PCGuia, a mensagem é clara: a Shield TV continua a ser o investimento mais seguro para quem procura longevidade e rigor técnico no entretenimento doméstico.