A indústria tecnológica acaba de testemunhar um dos negócios mais audazes da última década. A Meta, empresa-mãe do Facebook e Instagram, estabeleceu uma parceria estratégica com a AMD que pode atingir os 100 mil milhões de dólares. Este negócio não só visa garantir o fornecimento de hardware essencial para a corrida à inteligência artificial (IA), como também pode transformar Mark Zuckerberg num dos maiores accionistas da fabricante de semicondutores. O acordo prevê que a Meta venha a deter até 10% da AMD, caso determinadas metas de desempenho e de mercado sejam atingidas nos próximos anos.
Um investimento de escala colossal
O volume financeiro envolvido nesta transacção é, por si só, capaz de abalar as fundações do mercado de Silicon Valley. A Meta planeia adquirir chips da AMD num valor que pode chegar aos 100 mil milhões de dólares, o suficiente para alimentar centros de dados com uma procura energética estimada em seis gigawatts. Para colocar este valor em perspectiva, cada gigawatt de computação é avaliado em dezenas de milhares de milhões de dólares, segundo as palavras da CEO da AMD, Lisa Su.
Este compromisso plurianual foca-se na aquisição de GPU Instinct MI540 e MI450, além das mais recentes gerações de processadores EPYC. A estratégia da Meta passa por diversificar a sua infra-estrutura, procurando reduzir a dependência quase exclusiva que o sector tem mantido dos produtos da Nvidia. Ao assegurar este volume de componentes, a Meta garante a capacidade de processamento necessária para o que Zuckerberg define como “superinteligência pessoal”, ou sistemas de IA desenhados para compreender e capacitar os indivíduos no seu quotidiano.
Acções como moeda de troca
Um dos aspectos mais intrigantes deste contrato é a estrutura financeira baseada em “warrants” de desempenho. A AMD emitiu à Meta o direito de adquirir até 160 milhões de acções ordinárias a um preço simbólico de 0,01 dólares por cada título. No entanto, este prémio está sujeito a condições rigorosas. Para que a Meta receba a totalidade das acções, o preço dos títulos da AMD no mercado terá de atingir os 600 dólares, um salto considerável face aos valores actuais.
Esta modalidade de negócio, apelidada de “transacção circular”, espelha um acordo semelhante que a AMD firmou com a OpenAI em Outubro passado. Ao oferecer uma participação no capital da empresa, a AMD incentiva os seus maiores clientes a investir no sucesso a longo prazo do seu hardware. Se a AMD prosperar e as suas acções valorizarem, a Meta beneficia não apenas pela tecnologia que utiliza, mas também pelo retorno financeiro directo como accionista de referência.
O domínio dos chips personalizados
A parceria não se limita à compra de componentes padrão. A Meta vai receber versões personalizadas do chip de IA Instinct MI450, optimizadas especificamente para as tarefas levadas a cabo nos serviços da gigante das redes sociais. Embora os detalhes técnicos exactos permaneçam sob sigilo, especialistas sugerem que estas modificações visam reduzir a latência em tarefas críticas de inferência de IA.
No campo dos processadores, a Meta será um dos clientes de lançamento das arquitecturas de próxima geração da AMD, conhecidas pelos nomes de código “Venice” e “Verano”. Estes CPUs, baseados nas arquitecturas Zen 6 e Zen 7, respectivamente, são fundamentais para a pilha de computação de inferência, uma vez que oferecem uma escalabilidade mais simples e eficiente do que as soluções baseadas apenas em GPU. Lisa Su sublinhou que o mercado dos CPU está “em chamas”, impulsionado pela necessidade de infraestruturas de IA cada vez mais complexas e agentes autónomos.
Diversificação e soberania tecnológica
A Meta tem em curso um plano de investimento de 600 mil milhões de dólares em centros de dados e infra-estrutura de IA nos Estados Unidos. Só para 2026, a previsão de despesas de capital é de 135 mil milhões de dólares. Embora a empresa esteja a desenvolver os seus próprios chips internos, os atrasos reportados nesses projectos tornam a parceria com a AMD ainda mais vital.
Ao colaborar com a AMD, a Meta não está apenas a comprar chips; está a construir uma infra-estrutura mais resiliente e flexível. A dependência da Nvidia tem sido um ponto de fricção para muitas empresas de tecnologia devido aos preços elevados e à disponibilidade limitada dos produtos. Este novo ecossistema, que une a capacidade financeira da Meta à engenharia da AMD, cria um contrapeso necessário no mercado de semicondutores, garantindo que a inovação em IA não fique refém de um único fornecedor.