A Google está a preparar uma alteração profunda na forma como apresenta os resultados de pesquisa no continente europeu. Esta decisão surge como uma resposta estratégica para tentar resolver o conflito crescente com os reguladores da União Europeia, que acusam a tecnológica de práticas anticoncorrenciais. Segundo fontes próximas do processo, a empresa vai começar a testar novos formatos de visualização que pretendem dar uma visibilidade automática superior aos serviços rivais em categorias específicas, como a reserva de hotéis, voos e restauração.
Esta iniciativa tem como objectivo principal demonstrar a conformidade da Alphabet, a empresa-mãe da Google, com o Regulamento dos Mercados Digitais (DMA). Este conjunto de regras, que entrou em vigor no ano passado, visa limitar o poder das grandes plataformas tecnológicas e garantir um mercado digital mais justo. Em Bruxelas, os reguladores defendem que o motor de busca tem vindo a dar um destaque indevido aos seus próprios serviços de viagens e hospitalidade, o que acaba por prejudicar as plataformas de pesquisa vertical que se especializam em reservas e comparação de preços.
Visibilidade para a concorrência
De acordo com a informação disponível, os novos testes da Google vão passar a mostrar, por predefinição, os motores de busca verticais com melhor classificação para as consultas relevantes. Estes serviços concorrentes vão passar a aparecer ao lado dos resultados da própria Google, em vez de ficarem remetidos para posições inferiores na página, onde a taxa de clique é drasticamente menor.
Na prática, quando um utilizador realizar uma pesquisa por hotéis em Lisboa ou voos para Londres, o novo esquema visual vai destacar as plataformas rivais no topo da página. Abaixo destas, ou intercaladas em certos casos, a Google continuará a apresentar os seus fluxos de dados dinâmicos provenientes de companhias aéreas e fornecedores de alojamento. A empresa planeia implementar a primeira fase destes testes em toda a Europa, a começar pelas pesquisas de alojamento, antes de avançar para a restauração e outros sectores.
O peso do regulamento europeu
A arquitectura dos algoritmos de ranking da Google tem sido a espinha dorsal do seu modelo de negócio durante décadas. No entanto, para a Comissão Europeia, essa mesma estrutura transformou a empresa num “gatekeeper” (guardião) com um poder excessivo no comércio digital. O argumento das autoridades é claro: ao favorecer módulos internos de reserva integrados na pesquisa, a Google obtém uma vantagem estrutural que viola a exigência de tratamento igualitário para serviços concorrentes prevista no DMA.
O risco de ignorar estas directrizes é puramente financeiro e extremamente elevado. As violações do Regulamento dos Mercados Digitais podem resultar em multas pesadas, que podem atingir os 10% da facturação anual global da companhia. Para a Google, este não é um cenário hipotético, uma vez que a empresa já pagou cerca de 9,7 mil milhões de euros em sanções antitrust na União Europeia desde 2017, devido a infracções relacionadas com publicidade e software móvel.
Reacções e incerteza no mercado
Embora a Alphabet tenha proposto vários modelos de conformidade desde Março passado, a verdade é que as empresas rivais e os grupos industriais continuam a manifestar cepticismo. Muitos argumentam que as propostas anteriores não foram capazes de entregar uma mudança estrutural significativa no mercado. Esta nova actualização da interface de pesquisa representa, por isso, o ajuste mais concreto e visível que a Google realizou até ao momento para acalmar os reguladores.
Resta agora saber se estas alterações serão suficientes para satisfazer os rigorosos padrões de concorrência da União Europeia. Por enquanto, a Google parece estar disposta a modificar a arquitectura central do seu produto estrela para evitar um novo ciclo de sanções multimilionárias. O sucesso desta experiência poderá ditar o futuro da navegação Web na Europa e a forma como os utilizadores interagem com os serviços digitais no dia-a-dia.