A Alphabet, a empresa que detém a Google, está a levar a cabo uma das manobras financeiras mais audaciosas da história recente do sector tecnológico. Numa jogada que sinaliza uma confiança inabalável (ou uma necessidade desesperada de capital), no futuro da Inteligência Artificial, a gigante de Mountain View está a tentar captar cerca de 31 mil milhões de dólares em financiamento em vários mercados. O destaque absoluto desta operação é a emissão de obrigações com maturidade a 100 anos, títulos de dívida que só serão liquidados no próximo século, em 2126.
Este gigantesco esforço de angariação de fundos surge depois do anúncio de que a Alphabet planeia duplicar o investimento de capital para uns astronómicos 185 mil milhões de dólares durante este ano. O objectivo é claro: construir os centros de dados e a infra-estrutura física necessários para sustentar a corrida pela liderança na computação de IA.
O regresso das obrigações centenárias
A emissão de dívida a um século, conhecida no meio financeiro como “century bond”, é uma raridade no mundo da tecnologia. A última vez que uma empresa do sector se aventurou por este caminho foi em 1997, quando a Motorola emitiu títulos semelhantes. Antes disso, a IBM tinha feito o mesmo em 1996. Para a Alphabet, esta é a primeira vez que recorre ao mercado da libra esterlina para emitir dívida, e fê-lo com um estrondo que ecoou em toda a City de Londres.
A procura por estes títulos superou todas as expectativas. A tranche de 100 anos, que visava inicialmente angariar 750 milhões de libras, atraiu ordens de compra superiores a 5,75 mil milhões de libras, uma procura sete vezes superior à oferta. No total, a operação em libras da Alphabet atraiu propostas recorde de 30 mil milhões de libras, demonstrando que, apesar das incertezas tecnológicas, o mercado está a confiar na longevidade da Google.
Estratégia multi-divisa para evitar saturação
A Alphabet não está a limitar-se ao mercado britânico. A estratégia passa por diversificar as fontes de financiamento para evitar saturar o mercado do dólar americano. Além da emissão em libras, a empresa já garantiu 20 mil milhões de dólares em obrigações denominadas na moeda norte-americana, um valor que foi revisto em alta face aos 15 mil milhões iniciais devido à forte adesão dos investidores.
Simultaneamente, a empresa está a estrear-se no mercado do franco suíço, com o objectivo de captar pelo menos 2,75 mil milhões de francos. Segundo analistas bancários próximos da operação, esta dispersão por diferentes moedas e jurisdições permite à Alphabet aceder a um grupo mais vasto de investidores e obter taxas de juro mais competitivas, uma vez que o custo de financiamento a longo prazo no mercado da libra é, actualmente, mais vantajoso do que nos Estados Unidos.
O perfil dos investidores a longo prazo
Quem estaria disposto a emprestar dinheiro a uma empresa tecnológica para ser devolvido daqui a cem anos? A resposta reside nos fundos de pensões e nas companhias de seguros de vida. Estas instituições gerem passivos de muito longo prazo e necessitam de activos estáveis que correspondam a esses horizontes temporais.
Para estes investidores, a Alphabet é vista como uma instituição quase soberana, comparável a governos ou universidades centenárias como Oxford, que também já emitiram dívida a 100 anos. No entanto, especialistas em crédito como Song Jin Lee, do HSBC, alertam para a dificuldade de prever o ecossistema da IA a cinco anos, quanto mais a um século. A hierarquia das empresas tecnológicas é volátil e o que hoje é dominante pode tornar-se irrelevante em poucas décadas.
Riscos de uma visão a cem anos
Nem todos os analistas vêem esta emissão com optimismo. Existe o receio de que estas obrigações centenárias marquem o “topo do mercado”, um momento de euforia excessiva antes de uma correcção. O exemplo histórico da cadeia de lojas americana J.C. Penney serve de aviso: a empresa emitiu obrigações a 100 anos em 1997 e acabou por declarar falência em 2020, 23 anos depois, deixando os detentores de dívida numa situação precária.
No sector tecnológico, onde a obsolescência é a única constante, o risco é ainda maior. No entanto, a Alphabet parece estar a aproveitar a janela de oportunidade para garantir o financiamento enquanto o seu balanço é robusto e a fome dos investidores por exposição à IA é insaciável.
A Alphabet não está sozinha nesta maratona de endividamento. Gigantes como a Meta e a Microsoft também anunciaram planos de investimento massivos para os próximos anos. O Morgan Stanley prevê que o endividamento das grandes empresas de computação em nuvem atinja os 400 mil milhões de dólares este ano, um salto gigantesco face aos 165 mil milhões registados em 2025.
Este cenário configura uma autêntica corrida armamentista tecnológica, onde o capital financeiro é o combustível para a construção do poder computacional. Com a Oracle a procurar também 50 mil milhões de dólares para expandir a sua infra-estrutura de nuvem, o mercado de capitais está a ser testado nos seus limites para financiar a próxima era da computação.