A 15 de Janeiro de 2001, o mundo via nascer um projecto improvável que se tornaria a espinha dorsal da Internet. Hoje, a Wikipédia celebra 25 anos a lutar pela neutralidade num mar de algoritmos.
Do fracasso da Nupedia ao domínio absoluto do conhecimento livre
O que hoje conhecemos como o maior repositório de saber da humanidade nasceu, curiosamente, de um erro. Jimmy Wales e Larry Sanger tentaram inicialmente criar a Nupedia, uma enciclopédia com um processo de revisão por pares tão rigoroso — sete etapas de aprovação — que produziu apenas duas dezenas de artigos em quase um ano. A Wikipédia surgiu como um projecto secundário, permitindo que qualquer utilizador pudesse editar o conteúdo directamente. Vinte e cinco anos depois, os números são avassaladores: mais de 65 milhões de artigos em 300 línguas, mantidos por uma equipa de 250 mil voluntários activos. O projecto provou que a colaboração aberta funciona; em 2005, a revista Nature confirmou que a precisão da Wikipédia rivalizava com a da prestigiada Enciclopédia Britannica, silenciando os cépticos que duvidavam da fiabilidade de um sistema onde qualquer pessoa pode carregar um ficheiro ou alterar um parágrafo.
O paradoxo da inteligência artificial e o roubo de tráfego
Apesar do sucesso, a Wikipédia enfrenta agora a sua maior ameaça: a Inteligência Artificial (IA). Embora os modelos de linguagem, como o ChatGPT ou o Gemini, dependam inteiramente dos dados da Wikipédia para a sua aprendizagem, estas ferramentas estão a criar um “cerco” ao projecto. Quando um utilizador faz uma pergunta no motor de busca, a IA apresenta um resumo directo, impedindo que o utilizador clique no link da Wikipédia. Esta dinâmica retira visibilidade e, consequentemente, potenciais novos editores e donativos. Além disso, o “scraping” massivo de dados por bots de IA coloca uma pressão técnica sem precedentes nos servidores da Wikimedia Foundation. O paradoxo é cruel: a IA precisa da Wikipédia para ser inteligente, mas a sua existência pode asfixiar a fonte que a alimenta.
Guerras de edição e o envelhecimento da comunidade
A segurança e a integridade da informação são batalhas diárias. A plataforma tem sido alvo de redes de “sockpuppets” (contas falsas) e edições pagas não declaradas, onde empresas de relações públicas tentam branquear reputações. Em 2012, dois editores seniores foram apanhados a aceitar pagamentos para manipular artigos, forçando a fundação a implementar políticas anti-manipulação mais severas. Soma-se a isto o fenómeno do “envelhecimento” da comunidade. A Wikipédia debate-se para atrair sangue novo, enfrentando críticas sobre enviesamentos sistémicos — a maioria dos editores é masculina e reside no Hemisfério Norte. Ao mesmo tempo, forças políticas, como a Heritage Foundation, anunciaram planos para “identificar e visar” editores voluntários, acusando o site de parcialidade ideológica.
O futuro da neutralidade num mundo polarizado
A Wikipédia sobreviveu à era das redes sociais sem nunca mostrar um único anúncio, mantendo-se fiel ao ideal de ser um projecto não comercial. No entanto, o futuro depende da capacidade de renovar a sua base de voluntários e de resistir à desinformação coordenada. Como refere a Wikimedia Foundation no seu novo microsite comemorativo, a sobrevivência desta “biblioteca de Alexandria digital” é, em última análise, uma responsabilidade colectiva de quem utiliza o rato e o teclado para construir, e não para destruir, o conhecimento comum.