A Intel apresentou os seus resultados financeiros relativos ao quarto trimestre de 2025, revelando uma mudança estratégica profunda na gestão das suas linhas de produção. Perante uma procura que excede a capacidade de fabrico, a gigante de Santa Clara confirmou que está a a dar prioridade ao fornecimento de chips para centros de dados e Inteligência Artificial (IA), em detrimento do segmento de consumo. Paralelamente, o CEO Lip-Bu Tan confirmou que a próxima grande arquitectura de CPU para computadores de secretária, denominada Nova Lake, mantém o lançamento previsto para o final de 2026, prometendo ser o processador mais ambicioso da história da companhia.
Apesar de uma ligeira quebra homóloga na facturação anual, que se fixou nos 52,9 mil milhões de dólares, a Intel reportou receitas de 13,7 mil milhões de dólares no último trimestre, um valor que superou as expectativas mais conservadoras do mercado. No entanto, estes números escondem uma tensão operacional: a empresa está a vender praticamente todos os chips que consegue produzir, mas continua incapaz de satisfazer a totalidade da procura global.
A prioridade estratégica: IA e Centros de Dados
A divisão de Centros de Dados e IA da Intel foi a grande protagonista do último trimestre, registando um crescimento de 9%. Este desempenho foi impulsionado pela adopção em massa das novas linhas Xeon e aceleradores de IA, optimizados para grandes tarefas de processamento paralelo. Em contrapartida, o grupo de computação de cliente — responsável pelos processadores Core e placas gráficas Arc — viu a sua receita recuar 7% no trimestre.
Esta disparidade levou a gestão da Intel, liderada pelo CFO David Zinsner, a tomar decisões drásticas. A empresa está a canalizar a sua produção interna de wafers de silício para os produtos com margem de lucro mais elevada destinados ao sector empresarial. Para compensar a escassez no mercado de consumo, a Intel está a externalizar uma fatia maior da produção de chips para utilizadores domésticos para fundições externas, nomeadamente a TSMC. Esta estratégia visa garantir que a Intel não perde terreno no lucrativo mercado da IA, mesmo que isso resulte em pressões de stock ou de preço na linha Core Ultra.
O desafio 18A e a recuperação em 2026
Um dos principais entraves à capacidade produtiva da Intel tem sido a maturação do nó de fabrico 18A. Este processo avançado é visto como a “chave” para a Intel recuperar a liderança tecnológica face à concorrência. Contudo, o rendimento da produção inicial de chips viáveis tem sido inferior ao desejado. Relatórios internos indicam que, em meados de 2025, apenas cerca de 10% das wafers de silício 18A cumpriam os critérios de qualidade.
Embora a Intel afirme que os rendimentos estão a melhorar a um ritmo de 7% a 8% por mês, a base de partida é baixa. David Zinsner admitiu que o primeiro trimestre de 2026 representará o “fundo do poço” no que toca a restrições de oferta, prevendo-se uma recuperação robusta a partir do segundo trimestre desse ano. É neste contexto de transição que a Intel prepara o terreno para a sua próxima geração de hardware.
Nova Lake é a resposta à hegemonia da AMD e Apple
Para o final de 2026, a Intel confirmou a chegada da arquitectura Nova Lake, que deverá ser comercializada sob a marca Core Ultra 400. Esta linha de processadores é vista como uma resposta directa aos chips Ryzen com 3D V-Cache da AMD e aos processadores da série M da Apple, que têm conquistado quota de mercado nos últimos anos.
As especificações preliminares do Nova Lake são impressionantes. O modelo topo de gama, possivelmente o Core Ultra 9 485K, deverá contar com um total de 52 núcleos: 16 núcleos de desempenho (Coyote Cove), 32 núcleos de eficiência (Arctic Wolf) e 4 núcleos de baixo consumo. Além disso, a Intel planeia introduzir uma memória cache com muito mais capacidade, que poderá atingir os 288 MB, combatendo directamente a vantagem da AMD em cenários de gaming.
A plataforma Nova Lake marcará também a transição para o novo socket LGA 1954 e para o chipset da série 900, oferecendo suporte nativo para memórias DDR5 com velocidades que podem chegar aos 10.000 MT/s e 48 pistas PCIe. Curiosamente, enquanto os chips Panther Lake para portáteis usarão o nó interno 18A, a linha Nova Lake deverá recorrer ao processo N2 da TSMC, garantindo estabilidade de produção num momento crítico para a empresa.