Esta coluna devia passar a chamar-se ‘Tudo o que vem AI’. No menu temos a lavagem que nos estão a forçar a engolir disfarçada de música e que está a fascinar uma multidão de utilizadores, que acham que são estrelas de rock’n’roll, sem nunca terem pegado num instrumento. E @s groupies, também são virtuais?
Já devem ter ouvido falar de Velvet Sundown, um sucesso do Spotify que não passa de uma criação sintética que sintetiza um certo rock dos anos setenta, com foto, bio e tudo. Os músicos e verdadeiros melómanos estão escandalizados. Como se música de plástico roubada a outros músicos fosse novidade, mas enfim.
Como músico, e como curioso dos efeitos da tecnologia na nossa identidade e humanidade, quero perceber o que é que leva alguns utilizadores (não são criadores) a produzir conteúdo deste tipo. Não vão ficar ricos. Não vão poder dar concertos (como DJ, não conta). Não vão desfrutar do estilo de vida das digressões e de estúdio (cada vez mais raro).
O sexo, as drogas e o rock’n’roll não são a mesma coisa num universo tipo Minecraft. É o processo de aprender e criar música que faz com que algumas pessoas sejam músicos, sendo a sua obra uma consequência disso. «Ah, é preciso criar um prompt», diz o produtor musical artificial. Parabéns, sabes escrever uma frase, passaste para o segundo ano do ensino básico.
Estou a ler uma série de livros sobre a era de ouro do rock. São biografias de produtores que trabalharam com os Beatles, Led Zeppelin e Rolling Stones; contam a saga da gravação do ‘Rumours’, dos Fleetwood Mac, e a história das origens da guitarra elétrica. A música está sempre presente mas, acima de tudo, estão as pessoas que a fizeram e ultrapassaram os constrangimentos que tinham – os pessoais, interpessoais, criativos, psicológicos e de tecnologia. A sua experiência humana e as suas falhas. ‘Guitar Hero’ não era tocar uma guitarra de plástico à frente da TV. Nem compor é escrever prompts.
Escolher um prato do menu não faz de vocês um chef, mesmo que digam o que querem como acompanhamento.