Right to Repair: é desta?

A iniciativa europeia sobre o Direito à Reparação vai ser um verdadeiro pesadelo para ser implementada, porque vai mexer com princípios fundamentais que a generalidade dos fabricantes tem já como adquirida.
Joel Rohland/Unplash

Tenho sobre a mesa um equipamento doméstico utilitário que alguém me pediu para tentar ressuscitar e que não consigo abrir com facilidade, porque o respectivo fabricante utiliza, para o fechar, um conjunto de parafusos de formato incomum, cujas ferramentas não estão facilmente disponíveis.

Enquanto profiro obscenidades várias e tento um modo de ultrapassar o problema, a União Europeia fechou o período de consultas públicas sobre o Direito à Reparação. Quanta ironia nesta coincidência. Já aqui trouxe este assunto e perdoem-me se o faço reviver, porque é verdadeiramente importante para aqueles que se preocupam com palavras como ‘sustentabilidade’ e ‘ambiente’. Disso já sabemos, embora eu tenha também consciência de que a “separabilidade”, um palavrão simples, tem, no entanto, um profundo impacto em toda a cadeia de produção e comercialização.
A miniaturização de componentes trouxe menor volume aos equipamentos, logo menor peso, com consequências directas no design dos mesmos. Ao mesmo tempo, essa concentração trouxe custos escondidos ao consumidor. Na grande maioria das situações de avaria, não podemos substituir uma porta USB (é um exemplo, mas há centenas deles) sem substituir uma motherboard. É como se no furo de um pneu, o utilizador tivesse de substituir o automóvel.

A escalada de custos é muito pesada para produtos de vida média mais ou menos curta. Os equipamentos estão claramente a ter vidas cada vez mais curtas. Há quarenta anos havia Mac “para a vida”; hoje, e por razões diversas (umas compreensíveis e outras inacreditáveis), ter uma máquina (qualquer que ela seja) por mais de seis ou sete anos, começa a ser uma autêntica miragem. A iniciativa europeia sobre o Direito à Reparação vai ser um verdadeiro pesadelo para ser implementada, porque vai mexer com princípios fundamentais que a generalidade dos fabricantes tem já como adquirida.

É necessário “mexer” em quase todos os pontos da cadeia de produção para poder ser “compliant” com muitos dos fundamentos de futuras regulamentações. Não nos enganemos: da produção ao retalho, há um mar de dúvidas gigantesco que há-de vir a ser tema de discussões intermináveis. O consumidor tem de poder reparar, ponto. E isto é fácil de escrever, mas muito mais difícil de vir a ser realidade. Porque nós deixámos que chegasse a este ponto, porque nos deixámos enfeitiçar por aspecto, portabilidade e performance.