A Maçã que veio do frio

A reação imediata às sanções económicas e à suspensão de negócios da Apple na Rússia foi a de uma alta generalizada de preços de venda a público em quase 33%.

A interrupção do mercado Apple (oficial) na Rússia não é significativo em termos de volume de negócios. Há pouco menos de um par de anos era inferior ao volume de negócios da marca em Portugal. Aliás, a Apple não tem presença directa na Federação Russa, tendo o negócio de distribuição e retalho entregue a uma companhia privada, modelo que aliás prevaleceu em Portugal durante muito tempo até à chegada directa da Apple. A estrutura de Premium Reseller é similar, descontando, como é óbvio, a proporção da área territorial coberta, que é vastíssima.

Conheço bem essa estrutura, fomos “colegas” de trabalho durante alguns anos e nos contactos que vou mantendo sente-se obviamente alguma tristeza e também alguns silêncios que são compreensíveis. Mas nunca um mercado “banido” ficou sem fornecimento. É normal, as estruturas adaptam-se, recorrem a canais “alternativos”, mais ou menos legais consoante a força do dinheiro. A reação imediata às sanções económicas e à suspensão de negócios da Apple na Rússia foi a de uma alta generalizada de preços de venda a público em quase 33%, mais a mais numa altura em que só agora começavam a estabilizar os fluxos de produtos-bandeira como o iPhone.

A subida de preços mais não é que uma reacção esperada à súbita pressão económica que a Federação Russa sofreu e que desvalorizou o rublo de uma forma brutal. Aconteceu inúmeras vezes e já perdi a conta ao número de territórios em que a Apple baniu ou suspendeu fornecimentos. De memória, o Iraque, o Iémen, a Síria, a própria Rússia com alguns modelos anteriores, cujos processadores não tinham performances abaixo do crivo legal de exportações consideradas sensíveis.

Não foi, por isso, que se deixaram de vender, por vezes em quantidades que me causavam verdadeira inveja. As redes de contrabando ou importações “cinzentas” (nome dado na gíria internacional a compras legais por vias paralelas), acabam por se fazer impor devido à escassez de equipamento. Veja-se o caso do Brasil, que onera de forma extraordinariamente pesada as importações Apple e que tem verdadeiros negócios paralelos menos legais (mas de volume brutal) com grande parte dos países vizinhos e mesmo com a América do Norte. «A Economia – tal como a Natureza – encontra sempre o seu caminho». Aos meus amigos ucranianos, desejo a melhor das sortes, em segurança com as respectivas famílias. A História julgará as razões desta brutal agressão e a vida sorrirá de novo nos “pomares” de ambos os países. Slava Ukraini.