O meu iPhone por um rim

A assistência técnica a telefones é um mercado muito interessante e este gesto da Apple, se implementado em território português, é uma boa resposta ao “direito à reparação” do consumidor comum.

Uma pessoa arrisca-se a morrer e a não ver de tudo… esta semana foi notícia o lançamento que a Apple vai efectuar de um serviço de auto-reparação de alguns modelos iPhone, coisa que muito honestamente jamais pensei vir a ser realizado, face à experiência de muitos anos com este fabricante e à sua rígida postura no fornecimento de peças sobressalentes para os seus produtos, bem como à disponibilização de serviços que nunca passaram de miragens para o consumidor português.

Em teoria, a operação passa pela disponibilização de manuais de assistência técnica para dois modelos específicos de telefones (os dois últimos) e pelo lançamento de uma loja de peças. Este plano, que para já se cinge aos Estados Unidos, virá posteriormente a ser alargado a outros países, bem como a computadores da geração M1.

Mesmo que se não esperem milagres em termos de preço, ter acesso a peças originais é já bastante bom, sobretudo em termos de displays (claramente os mais desejados pelos consumidores inconsoláveis) e de boards, que até aqui tinham acesso vedado a Centros de Assistência Autorizados. Se bem conheço os processos, podem já despedir-se de qualquer garantia em termos de self-repair e decerto haverá crédito para atribuir em futuras compras para quem devolva peças para “reciclagem”. As aspas que coloquei não são inocentes. Nos processos de reparação da Apple, há muitos exemplos de peças substituídas (que os reparadores devolvem à empresa fornecedora) que são recondicionados e reintroduzidos no mercado. Isso, aliás, deu já origem a autênticas “novelas” de conflito, no passado.

Na verdade, é uma boa notícia para alguns reparadores de menor envergadura, mas que ainda assim conseguem providenciar um serviço de qualidade com peças oriundas de mercados terceiros. A assistência técnica a telefones é um mercado muito interessante, a dimensão da base instalada é colossal (sobretudo se vista na perspectiva global) e este gesto, se implementado em território português, é uma boa resposta ao “direito à reparação” do consumidor comum que não se atemoriza com delicados circuitos e componentes.

Obviamente que, para a grande massa de clientes, os reparadores oficiais continuarão a ser a resposta mais óbvia da marca às suas necessidades. Pelo menos até lhes ser pedido “um rim” pela substituição de um telefone com avaria de hardware ou por um display quebrado.