O verdadeiro impacto

A Apple está a juntar debaixo do mesmo chapéu um conjunto de opções técnicas e filosóficas que darão, decerto, os seus frutos, a médio prazo.

«O impacto real deste lançamento não é o produto em si, é a direcção que estão a tomar». Quem disse isto foi uma figura respeitada no mercado das previsões e análises, não fui eu, mas não podia concordar mais.

De todo o hardware e software anunciados pela Apple naqueles eventos que nos deixam alguma saudade de apresentações passadas (onde o esfuziante entusiasmo e paixão pelos produtos fazia tanta diferença, mesmo que apenas de um ponto de vista cénico), o mais importante é que a Apple está a juntar debaixo do mesmo chapéu um conjunto de opções técnicas e filosóficas que darão, decerto, os seus frutos, a médio prazo.

A mudança do paradigma dos seus próprios processadores (mesmo deixando no caminho um exército de pessoas que nestas mudanças sofrem sempre os efeitos de uma estrada irregular) é de certeza muito mais ampla que as percentagens de potência e duração de baterias. Isso são apenas números de marketing que não deixam, ainda assim, de ser verdadeiramente impressionantes e que deixo para o nosso director dissecar nas centrais (agora não me contrariem). O que está em causa é uma aposta muito firme numa convergência de computadores, telefones, tablets e relógios que serão completamente transversais para o código que neles irá correr.

Nós, comuns mortais, não estamos habituados a ver a longo prazo. A Apple está. Por muitas vezes (porventura até demasiadas) passei por situações em que, num dado momento, eram incompreensíveis para mim e que dez anos depois fizeram todo o sentido. Creio, com firmeza, que estamos perante um desses capítulos: a criação de um ecossistema que partilhe código e que possa ter vasos comunicantes com as restantes componentes de hardware.

Sim, “vejo” um mundo de apps que, para o utilizador, serão completamente transparentes onde quer que sejam usadas. Vejo um mercado que é hoje ainda um nicho (máquinas com 4G/5G built-in) a poderem ser uma realidade muito presente. A Apple está, rapidamente, a controlar muitos dos seus próprios aspectos de fabrico e de uso de tecnologia. Domina o core do sistema, domina as componentes rádio que tão bem tem aplicado em telefones e não tenho dúvida de que dominará (sentada numa colossal pilha de dinheiro) alguns canais que ainda não são claramente visíveis.

Este juntar de peças tem para mim o mesmo destino do iTunes para Windows: vai fazer congelar alguns infernos.

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