Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
OpiniãoPraia das Maçãs

Tenho Medo do Futuro

Tenho a certeza de que técnicos e comerciais do grande consumo hão-de vir um dia a ser vistos como aquele velhinho artesão que ainda coloca meias solas nos sapatos que amamos.

Tenho medo do futuro. Isto acontece-me com alguma frequência, não por causa das Gretas desta vida, mas provavelmente porque o meu futuro já teve horizontes mais vastos. A verdade é que tenho algum receio de para onde vamos, enquanto consumidores.

Há pouco menos de vinte anos, nós, os ditos consumidores, apoiávamo-nos fortemente na rede tradicional de comércio (não confundir com comércio tradicional). Os revendedores de informática eram vendedores e consultores, técnicos e pedagogos. Pagávamos o que pagávamos e, na margem, estava implícito um valor de acompanhamento do cliente. Na verdade há quarenta anos “casávamo-nos” com o vendedor. Era uma verdadeira violência para o vendedor, um descanso para o consumidor. Felizmente, isso foi mudando e o casamento foi mudando para união de facto e, mais recentemente, para um ‘eu na minha e tu na tua’.

Não era preciso ter mudado tanto… na verdade, a tal vida conjugal aconteceu devido ao comércio online. Deixámos de comprar soluções, adquirimos online as caixas. Fomo-nos distanciando. Passámos a ser amigos coloridos. Namoramos sem vergonha alguma ou o mais ténue sentimento de culpa com o fabricante.

Por vezes pergunto a amigos, a quem não reconheço as suas últimas aquisições, onde compraram algo e, sobretudo, as razões da “traição”. Não a vêem como grave. «Comprei por aí online», «Oh pá, estava a precisar de um restyling no hardware…». Não pedimos preço ao fornecedor de sempre (“de sempre” é, como imaginam, um espaço temporal cada vez mais estreito).

O cliente passou a recorrer à nossa amizade colorida quando não percebe bem o conteúdo da caixa que quer comprar, promete-nos amor eterno mas atraiçoa-nos com o preço uns cêntimos mais barato no primeiro site que encontrar. Ou, quando tem problemas, com a caixinha comprada algures.

Alguns deles vêem-nos como médicos no serviço de urgência. Trazem-nos as amantes enfermas e pedem-nos que tratemos delas como se também fossem nossas amantes. Porventura, é a isto que se chama ‘ter profissionalismo’.

Até ao dia em que os tradicionais vendedores já lá não estiverem. Tenho a certeza de que técnicos e comerciais do grande consumo hão-de vir um dia a ser vistos como aquele velhinho artesão que ainda coloca meias solas nos sapatos que amamos. Até desaparecerem. E aí, irão falar com o call center que lhes venderá uma caixa nova.

PCGuia