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A Desumanização
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A Desumanização

por Carlos Gonçalves12 Março, 2017

A notícia é nova. O assunto quase que morreu de velho, mas renasce em discussões várias, todos os dias, um pouco por todo o mundo.

Um robô de nome Xiao Nan, entrou ao serviço na semana passada, no Southern Metropolitan Daily, e só em 4 horas escreveu 150 mil notícias. É verdadeiramente fantástico, especialmente em termos quantitativos e decerto gramaticais. Mas desde logo pus-me a pensar: Quem recolheu os factos, para criar as notícias? Quem, na presença desses factos, decidiu qual era o principal motivo de notícia e os motivos secundários que consubstanciam a notícia?

Como quase sempre que vejo notícias e artigos sobre este tema, suspirei de alivio. Não só pela mais que legítima preocupação pelos robôs serem uma grande ameaça aos postos de trabalho que podem ser ocupados por humanos – humanos esses que recebem dinheiro por esse trabalho e com esse dinheiro vão poder comprar coisas feitas (espero eu) por outros humanos e, assim, fazer crescer a economia; mas também porque por mais naturalizada que seja a sua inteligência, não me revejo num mundo cada vez mais artificial. Nem eu, nem ninguém. Se é certo que há sectores onde a produtividade cresce na razão inversa à dos custos e problemas laborais, outros há em que é impensável imaginar um robô a fazer o papel de um humano.

Se dúvidas houvesse, olhemos para as mais bem sucedidas Start-Ups do mercado. Elas, que são exemplos perfeitos de utilização da tecnologia e robótica em benefício da qualidade de vida homem e mesmo da sua sociabilização (caso, por exemplo, do Facebook ou do Tinder), jamais existiriam sem a inteligência e a sensibilidade humana. Elas jamais cresceriam ou aperfeiçoariam a sua oferta, sem o diálogo promovido transversalmente entre colaboradores, em espaços de coworking feitos especialmente para isso (veja-se o exemplo da Google e tantas outras, que competem sobre quais os mais criativos e confortáveis espaços de sociabilização que ostentam orgulhosamente em cada uma das suas sedes); ou na troca de ideias e recolha de contributos junto dos seus clientes.

Imaginemos espaços de trabalho ocupados por várias empresas, onde há eventos de networking e áreas lounge confortáveis que convidam à troca de ideias, ao relaxamento ou ao mindfulness (3 coisas que os robôs jamais precisarão). Imaginemos uma mesa onde todos podem conversar sobre a relevância de uma nova app para um nicho de mercado que tem um problema em concreto. Imaginemos uma mesa onde todos podem fazer uma vídeo-conferência com parceiros coreanos que já estão a investigar algo do mesmo género, com vista à celebração duma parceria estratégica.

Mas imaginemos que neste espaço não existe uma única pessoa, mas somente robôs. Não é difícil imaginar o quão desnecessário é explicar mais sobre a impossibilidade deste cenário até porque, obviamente, os robôs não se sabem fazer a eles próprios, a não ser que os Humanos os programem para isso.

Aprendamos com a capacidade de foco e a produtividade dos robôs. Mas jamais deixemos de ser orgulhosamente Humanos a trabalhar em conjunto para um Mundo cada vez mais Humano.

Acerca do autor
Carlos Gonçalves
CEO do Avila Spaces - Offices & Coworking. Ex-Director Internacional da Global Workspace Association. Orador em conferências nacionais e internacionais na área dos novos modelos de trabalho. Autor do livro "Out of the Office", desenvolveu a primeira aplicação mundial de escritórios virtuais para dispositivos móveis (myOffice app). Em 2012, é galardoado com um CIO Award, tendo ganho também o Troféu Call Center em 2011, 2014 e 2015 pela qualidade de serviço de atendimento na vertente de escritório virtual.